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LIÇÕES DE VIDA.

Com muita alegria recebo um livro editado por minha muito estimada amiga, Ministra FÁTIMA NANCY ANDRIGUI,  gaucha que tive a ventura de conhecer quando chegou a Brasilia aos vinte e poucos anos´para assumir o cargo de Juiz de Direito em face da aprovação em concurso público, e   que agora,   na condição de Corregedora Nacional de Justiça, organizou uma coleção de textos  sob o título de A JUSTIÇA ALÉM DOS AUTOS, tendo como Coordenadores os Desembargadores Fátima Bezerra Cavalcanti, Pedro Feu Rosa e o Juiz Álvaro Kalis Ferro  que na realidade traduz uma verdadeira lição de vida pela pluralidade de exemplos de fatos reais do quotidiano.

Na introdução diz: ” Um refolgo da labuta diária pode ( e deve) ser um serviço da memória, sobretudo, dos casos dramáticos e pitorescos experienciados. Didaticamente, esses acasos nos mostram que a espontaneidade da vida é sempre maior que as nossas expectativas. O prazer de relembrar, com a sensação do dever cumprido e bom humor, é como cantar, e, como nos ensinou o maestro Villa-Lobos, ” um povo que sabe cantar está a um passo da felicidade”. O meu desejo é que todos os amigos pudessem desfrutar dessa obra, e por isso, ouso transcrever um dos textos, escrito pelo Juiz Romero Carneiro Feitosa, de João Pessoa ( PB) ( fls 438 do Livro citado).

Dei conhecimento dessa iniciativa à Organizadora Ministra Fátima Nancy,  através de um e-mail e se não receber nenhuma restrição repetirei a republicação de alguns outros que irei selecionar.

” Recasamento

Juiz de Direito Romero Carneiro Feitosa

João Pessoa / PB

Já celebrei, como magistrado, mais de 75.000 casamentos cm 20 anos no exercício do cargo. Em todos eles, quer coletivo, quer individual, coloquei muito amor. Procurando dar às cerimônias civis uma conotação sacramentar, independentemente da religião dos noivos — Deus é convidado a fazer parte da festa, como Jesus o foi na Boda, de Caná. Até aos ateus e aos agnósticos dou um tratamento especial nos atos do casamento civil, tendo em vista que, em todas as ocasiões, o amor é valorizado e o amor é mais que a lei. Que é este sentimento senão a manifestação da divindade em nós, independente do credo, de status social e da opção sexual?

Assim, vou cumprindo prazerosamente a minha missão de Juiz de registro público, que não se limita a despachar processos de for­ma burocrática, mas procura amenizar conflitos e manter a harmonia familiar e social no acompanhamento dos registros civis das pessoas naturais (físicas). Além desses atos de ofício, existem situações que jamais saem de minha memória e apresentaram-se como um desafio funcional.

Não foi um casamento, foi um recasamento, sem ter sido casa­mento, porque foi um divórcio que se evitou entre pessoas de muita idade, do interior da Paraíba, na cidade de Conceição. Casados há muito tempo, com filhos e netos, o marido traía a mulher, era infiel, gostava de namorar, e ela nunca havia percebido isso. Até que, aos 70 e tantos anos de idade (ele com cerca de 80), descobriu que seu cônjuge tinha uma namorada e correu ao Fórum, pois era minha vizinha e eu a tratava muito bem. Procurou-me no cartório e resoluta, determinada e revoltada solicitou-me ajuda no divórcio que estava para propor Casada há quase cinquenta anos ou mais, dizia-se indignada e estava querendo se separar e eu surpreso ponderei:

  • A senhora deseja separar depois de tanto tempo, por quê?
  • Eu quero me divorciar, porque ele está me traindo com uma me­nina que mora numa rua atrás da minha casa, e eu não admito! — ela me respondeu taxativamente.

Conversamos por 5 minutos, sobre outros assuntos, só para acalmar o seu coração que estava angustiado. Então falei:

  • Deixe-me tomar pé das coisas, para eu poder lhe ajudar.
  • Agora vamos resolver o problema do seu divórcio, deixe-me fazer- -lhe uma pergunta: ele está namorando? — falei, querendo amenizar essa determinação dela.

– Tá.

  • Namorando homem ou com mulher?
  • Com mulher, claro! — ela tomou um susto, afastou a cadeira.
  • Claro não! Está cheio de história de homem mais velho namo­rando rapaz novo. Isso é a realidade atual e pode estar acontecendo com a senhora.
  • Não! Graças a Deus, ele tá namorando uma menina, porque o meu constrangimento seria maior.
  • Então…
  • Doutor! Sob essa ótica, graças a Deus, é uma moça, não um rapaz, porque seria uma vergonha, para mim, aqui no interior.
  • Sendo assim, metade do problema está resolvido, não é Dona Severina*?
  • Do jeito que o senhor tá dizendo é mesmo, 50% do problema resolvido — ela concluiu.
  • Na hora do almoço e na janta, quando seu Francisco* chega, como a senhora o recebe?

Imediatamente, levantou-se e fez um gesto com o dedo na testa, expressando o cansaço, o suor, o trabalho na cozinha, e falou:

  • Eu sou uma mulher muito trabalhadora e, até a hora da chega­da dele para as refeições, eu estou lá no fogo, fazendo comida gostosa, tudo do jeito que ele aprecia, e ele não me diz nem um obrigado. Mas eu nunca o traí!
  • Está errado! Está errado! A senhora não pode fazer isso. A senhora deve fazer o seguinte: ir para cozinha, coordenar tudo, fiscalizar suas se­cretárias, para que a comida saia saborosa, e reclamar, quando não estiver boa. Aperfeiçoar o sabor da comida que ele vai degustar, mas, na hora da chegada dele, a senhora deve ir para o quarto, tomar um banho com sabonete Phebo (do preto, que é mais cheiroso), botar uma lavanda na roupa e no corpo todo, colocar um vestido bacana e esperar por ele. A senhora pode ter certeza, se fizer isso, seu casamento estará salvo, e a senhora não quer a ruína do seu casamento, eu sei!

Ela, na mesma hora, esquecida da raiva e da mágoa que estava sentindo do marido, levantou-se e exclamou: Eu vou fazer isso! Na sua saída, imediatamente, chamei o Oficial de Justiça e pedi que fosse atrás de seu Francisco: “Diga-lhe que venha agora, que pare tudo o que estiver fazendo e venha falar comigo, que é caso de vida ou morte”. “Logo em seguida, chega o cidadão todo agoniado, e pergunta: Doutor, o que está acontecendo”?

Relatei o fato. Ele quis se justificar, mas prontamente, falei: O Senhor está desrespeitando sua mulher. Não estou dizendo que o senhor seja um santo, mas o senhor tem que respeitar sua mulher. O senhor está desmoralizando sua mulher e sua família senhor, numa idade dessas, com uma menina nova, na rua de trás, isto é um absurdo! Agora, quero lhe dizer uma coisa: hoje, quando o senhor chegar em casa para o almoço, ela vai estar diferente, taça lhe um agrado, faça-lhe um carinho, que o senhor vai salvar seu casamento Apenas isso e depois me diga. .Ele levantou se. e dessa. vez,  era ele tirando o suor da lesta , pôs o chapéu , agradeceu-me e tomou o caminho de casa. Na manhã seguinte bem cedo, lá vem aquela senhora a esposa dele. Corria com as mãos para o alto e exclamava: “Doutor o senhor salvou o meu casamento. Me dê um abraço”. Não vou esquecer nunca esse fato. Bastou um dia de reflexão para consolidar uma união de cinco décadas. Para mim foi melhor que celebrar um casamento. Salvei um relacionamento de um casal de quase sessenta anos de vida em comum, que estava prestes a viver uma crise conjugal, talvez sem remédio.”

Que maravilha!!

 

 

 

2 respostas »

Excelentes as matérias postadas

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