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JUSTIÇA FORA DOS AUTOS (2)

Como eu disse na primeira publicação de textos desse livro coordenado pela Ministra Fatima Nancy Andrigui, trata-se de verdadeira Lição de Vida. São fatos que ocorrem em todos os lugares e a qualquer hora.

“O Policial Ciumento

Juiz de Direito Luis Otávio de Queiroz Fraz

Gurupi / TO

Aquela seria uma audiência tensa. O marido, segundo o próprio, havia surpreendido um homem sorrateiramente deixando sua casa e como já vinha desconfiando, atirou nele do outro lado da rua, mas não foi feliz no intento.

Por isso, entrou em casa e expulsou mulher e filhos aos berros e ameaças. Refeita do susto ela procura a Defensoria Pública, pede o retor­no à casa para agasalhar os filhos, separação cautelar de corpos e pensão. Consegue a liminar do Juiz.

Como casos assim não podem esperar, fora marcada audiência para o mais breve possível, e lá estavam ambos, frente a frente, sofrendo as dores e vergonhas da exposição visceral de sua história.

Chega preciosa e oportuna informação: o homem está armado.

O que fazer? Como agir? A polícia estava à porta da sala e deixara alguém ali entrar portando armas.

Perguntei-lhe de chofre:

  • O senhor está armado?
  • Me dê suas armas.

Ele abriu a pasta preta tipo 007 pousada no colo, enquanto na sala todo lívidos e paralisados aguardavam o desfecho do ato. Entregou um revólver calil >r< 38, municiado, e uma faca peixeira, grande e muito bem afiada.

Lentamente retirei as balas e guardei as armas na gaveta embaixo, sob olhares atônitos de todos.

O Promotor pediu lhe a prisão em flagrante delito por porte ilegal de armas.

O moço não se abateu. Percorreu os olhos por toda a sala, olhando um por um dos presentes e disse com voz pausada e audível.

  • Doutor, nem o senhor, nem o promotor, nem ninguém vai impedir-me de matar esta mulher! O senhor me prende, eu saio um dia de lá. E vou mata-la, é tão verdade como a luz do sol.

Novo pedido de prisão, desta vez por desacato à autoridade.

Deixei para apreciar os pedidos do Promotor ao final do ato.

Ouvi as partes, as testemunhas. Audiência longa, nervosa, com em bates de advogados. Terminada a instrução, pedi que evacuassem a sala e me deixassem sozinho com o réu, para espanto de todos.

Era um policial reformado.

O conheci em minha cidade quando eu ainda era um menino. Ele não se lembrava de mim. Feliz coincidência aquele reencontro.

E perguntei a ele: — Você foi policial em Araguacema? Assentiu com a cabeça, olhos fixos no chão.

Conheceu uma senhora chamada Ivan, mãe de três filhos que possuía um pequeno comercio na cidade?

Me olhou fundo, com desconfiança e respeito e deu detalhes de minha velha casa.

Apresentei-me a ele: sou o mais novo dos irmãos.

  • O tatá? ( meu apelido de família).
  • Sim, respondi. Aquele menino tantas vezes engraxou seu garboso coturno; ele admirava o correção de seus atos, o brilho da fivela, o cuidado com a aparência.

Veja como a vida o transformou.

Hoje peita autoridades, ameaça mulheres frágeis, aflige indefesas crianças. Onde ficou aquele honrado homem?

E a conversa fluiu por esse caminho.

Ele despencou num longo e incontido choro. Pediu água, lenço de papel e desculpas.

Muitas desculpas. Prometeu não cumprir as ameaças feitas e atender a Iodas as determinações da justiça. Por último escondeu o rosto atrás de um velho e já surrado óculos escuros.

Vi sinceridade no gesto porque mostrara o tamanho de suas fragilidades, de seus conflitos.

E para demonstrar crença nos compromissos ali firmados, devolvi-lhe  a faca e o revolver sem munição.

Recomposta a sala, foi confirmada a guarda das crianças, estabelecida a pensão alimentícia e o retorno da mãe com a prole ao pequeno casebre do povoado ali próximo.

Ao Promotor disse eu disse: — por medida de política social e pelo bem da família, aquele homem saina livre para ajudar criar os filhos.

E se foram todos, silenciosos e cabisbaixos, a pelejar com a vida…

2 respostas »

Excelentes as matérias postadas

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