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A SOLIDÃO DO PODER

Conforme já citei em outras oportunidades, estou lendo, lento e bem compenetrado os livros Diários da Presidência do Presidente Fernando Henrique Cardoso e impressionado com a riqueza de detalhes dos relatos que foram degravados de um depoimento diário, ao vivo, e no foco dos fatos, com todas as emoções naturais e a reações do momento em que ocorreram.

Mas o principal, para mim, é a verossimilhança do depoimento com a realidade que talvez poucos conheçam no que se refere à solidão do Poder e as angustias de quem o detém.

Sinto-me muito à vontade para atestar essa situação pelas experiências que tive junto a mandatários que demonstravam o que é natural, mas pouco reconhecida,  a sua natureza humana que faz com que sintam, sofrem, se alegram e se destroem como qualquer outro. A circunstância de estar eventualmente em uma  político-social, tida como superior, não lhe tira a condição básica de um  ser humano com todos os defeitos e todas as qualidades.

Assim, quantos vezes presenciei a euforia, a alegria o entusiasmo daquele que em poucas horas era passível de se prostrar de forma inacreditável em face de fatos supervenientes que se lhe eram infringidos.

Quantas vezes vi, preocupados, aqueles que naturalmente a mim pareciam ídolos indomáveis e imbatíveis, confessar o desejo de abandonar tudo e dar fim àquele mandato que recebera como um voto de confiança por toda uma população, que aos poucos os consumiam e lhes impunham uma responsabilidade superior à que podiam suportar. E realmente era preciso que se lhes dispusessem um momento de recolhimento e repouso para retomar as suas energias e o ponderado raciocínio que não lhes permitisse cometer um ato impensado.

Vejo agora o anuncio de uma publicação a ser editada de autoria de BORIS FAUSTO, em que compara os Diários de Fernando Henrique Cardoso e Getúlio Vargas. Trata-se da divulgação de anotações, gravadas no dia a dia, desses governantes, e conforme diz “ raridade nos registros históricos deste desmemoriado país.” Destaca uma conversa da filha de Getúlio, Alzira Vargas do Amaral Peixoto, fiel escudeira de seu pai, com Oswaldo Aranha, ministro e amigo íntimo do Presidente, nos tempos do Estado Novo “ Teu pai anda escrevendo algumas coisas em um caderninho preto que ele esconde sempre. Hoje ele me deu algumas notas que me deixaram preocupado.” Mais tarde, , Alzira lembra da história do caderninho preto e cobra do pai que disfarça e diz que o queimara. No entanto, mais tarde o encontra e constata que se tratavam de vários cadernos que foram resgatados pela brilhante historiadora, sua filha, CELINA que teve a iniciativa de publicar. BORIS FAUSTO, no entanto, afirma que se decepcionou quanto ao conteúdo desses escritos que pouco esclarece o posicionamento de Getúlio no que se refere aos grandes temas nacionais. Mas, para avaliação do enfoque objeto desse nosso texto, os Diários são bastante ricos quando demonstra o estado psicológico desses políticos.

Explica ainda: “A decepção é compreensível, mas, na verdade, os diários, tanto os de Getúlio Vargas quanto os de Fernando Henrique Cardoso, são fontes históricas importantes, quando mais não fosse, por revelarem estados de espírito, dúvidas, desabafos, reações diante dos fatos, que os autores não expressariam em público. “

Diz ainda: “ Fernando Henrique Cardoso refere-se pela primeira vez à leitura de fragmentos do “Diário” de GV, dizendo-se algo decepcionado porque esse homem distante, frio, não registra os principais acontecimentos, e sim coisas pessoais, embora também o faça em seus escritos.

Entretanto, mais adiante, sempre a partir do “Diário” de Getúlio, FHC pondera: “Ele enfrentou muito mais dificuldades, meu deus, para organizar o Estado mais moderno que construiu, muito mais dificuldade. Fez também à base de muito mais ditadura, com atropelos de toda ordem. Era um inferno, e é gozado como a pequena política dominava. A impressão era de que os fatos iam conduzindo Getúlio, e não Getúlio os fatos, e na verdade não era bem assim”.

O fim trágico de Getúlio Vargas aparece nos “Diários da Presidência” de Fernando Henrique Cardoso num momento em que ele mesmo revela certo desencanto com reações da sociedade e com hesitações no interior do próprio governo.

FHC lança aí uma reflexão que qualifica como um pouco amarga: “Há momentos em que a gente pensa: bom, já fiz tanta coisa, será que não dá para parar? É como se houvesse um começo de sentimento de morte, que nunca tive”. Nessa altura, surge em contraste a figura de Vargas: “O Getúlio, entretanto, li no seu ‘Diário’, fala sempre em suicídio; sempre fui o oposto, não penso em nada disso, estou pensando no quanto a morte, no passado, era encarada por mim como uma coisa terrível e agora, pouco a pouco, vai me parecendo coisa natural”.

Em outra passagem, FHC fala de grandes figuras políticas da segunda metade do século 20, dizendo que De Gaulle tinha uma ideia de morte, de quem quer entrar para a imortalidade, diferente da de Getúlio. A morte para GV era uma espécie de vingança pessoal: “Já que eu não posso ganhar, eu ganho morrendo. Se matou e ganhou. No caso de Getúlio, a visão é a de um homem autoritário: ou aceitam o que estou fazendo ou então eu ganho nem que seja me matando”.

Olho a face do Presidente Temer comparando com o que demonstrava quando assumiu a Presidência da República, e já podemos   notar a diferença evidente ocorrida.

O cansaço expresso mostra o desgaste físico e mental diário que esconde uma demanda cruel de quem vinha com uma vida pelo menos aparentemente tranquila usufruindo a companhia da mulher e do filho sem ter que matar um leão por dia.

Sabe-se lá o que tem passado nas noites mal dormidas, com as reformas propostas à Nação, borbulhando em sua mente, com as manifestações de rua sacudindo o seu cérebro e o peso da responsabilidade de tomar decisões impopulares, mas necessárias, ouvindo críticas e protestos, até viáveis, mas impossíveis de serem atendidos.

Aí, queiram ou não queiram confessar, vem a inevitável bola de neve, como uma roda gigante, com altos e baixos, e os momentos em que olha para cima e diz: “ O que é que eu vim fazer aqui??”Mas ao mesmo tempo vem a convicção de que há muito a ser feito para a salvação do país de uma situação caótica em que nos encontramos.

Nessa hora é que se configura a solidão do poder.

 

2 respostas »

    • Pois é.. o fato é que as pessoas viram um personagem e aos olhos dos outros perdem a sua condição humana. Por isso é importante levar tudo isso em conta na avaliação desses governantes, salvo, é claro as lambanças que não têm nada a ver com isso.

Excelentes as matérias postadas

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