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MEMÓRIAS POLÍTICAS

Nesse período de pouca fertilidade de assuntos interessantes, vamos esquecer a mesmice e relembrar alguns fatos que li ou presenciei.

Meu amigo fraternal, Dario Macedo, cearense, grande jornalista, mas que  foi de uma incompetência muito grande morrendo antes da hora deixando-nos  quando ostentava os melhores momentos de sua vida.

Dentre suas obras destaco o Livro: “ Política, nem sempre “ no qual descreve todas as suas experiências vividas no jornalismo político.

Vou me permitir transcrever alguns trechos e em especial os dedicados ao nosso Estado de Minas Gerais.

Uma pérola literária.

“ OS SETE MISTÉRIOS (INSONDÁVEIS) DE MINAS

Os Dez Mandamentos

I’1— Mineiro só é solidário no câncer. Às vezes, na autópsia.

29 — O importante não é o fato, e sim a versão.

39 — Ao adversário não se pede nada. Nem mesmo demissão.

49 — Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Se possível.

59 — Respeitar: padre que arranja votos, juiz que apura os votos e soldado que garante a posse.

69 — Ao líder compete comandar: “Preparemo-nos! ” E “Vão! ”.

7? — Voto comprado é progresso. Compra-se o que tem valor.

89 — Em briga de políticos, perdem os dois.

9? — Mais vale quem o governo ajuda do que quem cedo madruga.

10? — É conversando que a gente se entende. Mas conversa entre mais de dois é comício.

 

O Culto de Tiradentes

 O gosto pelo silêncio faz do mineiro sempre um confidente. Não abrir o jo­go, nunca, é sua atitude permanente. Inconfidência — disse uma vez o depu­tado José Maria Alkimim — só a registrada nos livros: a “Inconfidência Minei­ra”, episódio de que os mineiros se orgulham, porque lhes assegurou uma pági­na imortal nos anais da história do País, mas que fica apenas nisso, na reverên­cia respeitosa.

Mesmo porque se conta que em Minas, quando a criança já começa a en­tender as coisas, é comum os pais levarem-na a Ouro Preto para visitar o Museu de Tiradentes e com ela travar um diálogo.

O pai, apontando para a estátua do Alferes, pergunta:

— “Ocê sabe, meu filho, quem foi este? ”

“Não, papai! ”

“Meu filho, este foi Joaquim José da Silva Xavier, o homem que morreu em holocausto pela nossa Pátria, que deu sua vida para livrar-nos do jugo por­tuguês. Um herói, um grande homem, meu filho…”

“Papai, que maravilha!…”

“Sim, meu filho, uma maravilha. Mas não se empolgue. Foi este o único mineiro que ficou contra o governo e terminou esquartejado…vamos, filho, va­mos. Anote o nome, respeite, mas não imite o gesto. ”

A pausa e a conclusão

Organizava-se o Partido Popular em Minas e o seu presidente de honra, o Deputado Magalhães Pinto, permanecia alheio aos esforços para estruturar o partido desenvolvido por Tancredo Neves, o presidente nacional, preferindo di­vidir o seu tempo entre Brasília e Rio de Janeiro digerindo aqui e lá os rela­tórios que lhe mandavam ou recebendo telefonemas sobre o desenvolvimento das ações políticas em seu Estado. Ao lado da estruturação do PP, corria tam­bém em Minas a notícia de que tomava corpo a candidatura do Senador Tan­credo Neves ao governo do Estado, candidatura que nascia à revelia de Maga­lhães, que com relação a ela não foi ouvido nem cheirado.

E foi nesse clima que em seu gabinete na Câmara o Doutor José de Maga­lhães Pinto, líder civil da Revolução de 1964, o Ministro das Relações Exterio­res do Governo Costa e Silva, o fundador do Banco Nacional, o ex-Presidente do Senado, o homem que derrotou Tancredo Neves em 1960 para Governador de Minas, foi procurado por um grupo de jornalistas.

“Doutor Magalhães, como está o PP em Minas? ”

“Estão arrumando o PP.”

“E por que o senhor não vai ajudar a arrumar? ”

“Porque o Tancredo está arrumando e, quando tudo estiver arrumado, eu vou até lá. ”

Os jornalistas se entreolharam. E nova investida:

“Doutor Magalhães, o Senador Tancredo Neves é candidato ao gover­no de Minas? ”

“Bom, ele me disse lá em casa que não é.…”

“E o que o senhor acha? ”

“Eu não acho nada. Ele me disso que não é…

Eez se uma pausa, Magalhães mandou pedir um cafezinho, delicadamente servido, e ninguém falou mais uma palavra. De repente, abrindo um sorriso para espanto de todos, Magalhães abriu a boca e falou, “Mas é..”

 A Filosofia das Ruas, segundo Último de Carvalho ( Ex-Deputado federal)

“Carro oficial é como esfinge do Senhor Morto, em procissão de enterro: se a gente tira a mão dele, só em outra Semana Santa consegue pegar-lhe a alça. E, assim mesmo, chegando à Igreja antes de a Procissão sair. ”

“O AI-5, para a democracia, ê como o mandacaru para o nordestino: não dá sombra nem encosto…”

“O PSD estruturou-se no Poder, para o poder…”’

“A UDN reestruturou-se na oposição, para a oposição. ”                            

“O PSD, quando governo, consolidava-se, para continuar governo. ”

“A UDN, quando governo, renunciava, para continuar oposição. ”

“A minha filosofia ê que ninguém ê contra nós, mas a favor de outros. ”

“O que é a Praça dos Três Poderes? Três Poderes: dois de frente e um de fundos? Precisa dizer mais? ”

O Clássico Benedito

  • Governador Benedito Valadares chega um dia, bem cedo, ao Palácio do Catete para uma audiência com o Presidente Getúlio Vargas. Na ante sala encontra-se com o Ministro da Educação, Gustavo Capanema, que, ao vê-lo de óculos escuros, pergunta:
  • “O que é isso, Benedito?”

—“Uma conjuntivite nos olhos.”

  • “Benedito, é um pleonasmo!”

Valadares despediu-se e entrou para falar com Vargas, que lhe fez a mesma pergunta:

“O que é isso, Benedito, de óculos escuros?”

“Presidente, o médico lá em Minas me disse que era uma conjuntivite nos olhos. Mas o Capanema, que quer ser mais sabido que os médicos, me disse que é um pleonasmo. ”

\ A língua Surrealista

Que língua falam os mineiros? Segundo o jornalista Tarcísio Holanda, um cearense: “eles  têm  um dialeto próprio”.

Trabalhei na Liderança da ARENA na Câmara dos Deputados, sob a Chefia do Deputado Ernani Sátiro da Paraíba, conhecido pela voz alta e gutural e a todos chamava de “ Amigo Velho”.

Com a mudança de governos estaduais, pelo colégio eleitoral ( as eleições diretas estavam suspensas) foi nomeado Governador do seu Estado. Mas volta e meia vindo a Brasília, sentava praça ( gíria dos quarteis) no Gabinete da Liderança.

Um dia, falando com o Chefe da Casa Civil do Estado, pelo telefone ( gritando como se a pessoa fosse ouvir diretamente) perguntou pela chuva na Região. Após vários relatos do seu auxiliar, ficou com semblante muito vermelho e falou raivoso: “ O Amigo Velho tem alguma prevenção com a palavra chuva???” e ante a negativa do interlocutor, verberou: “ Então o Amigo Velho pare de falar em precipitação pluviométrica senão te demito!!!!!”

Ainda nos idos da Liderança da ARENA, recebemos o então “ candidato” General Costa e Silva ( Nota: Era praxe quando o Alto Comando escolhia quem seria o Presidente da República, realizar uma convenção do Partido para sufragar o nome como candidato escolhido pela base, para dar um respaldo de democracia) que ali comparecia para um contato com os deputados que iriam votar nele no Colégio Eleitoral.

À paisana (sem farda) e demonstrando uma amabilidade que na verdade não possuía, abriu a guarda para exercitar um bom humor. Nessa oportunidade de conversa aberta, perguntei como ele se sentia saindo do convívio rígido militar para aquele ambiente próprio da casa política? Ele me respondeu que era natural e que estava se acomodando. Aumentei a carga e lhe perguntei se ele sabia das piadas que faziam a seu respeito. Ele em principio franziu a testa, mas logo em seguida esboçou o modesto sorriso e me disse: “ Olha, todo político, principalmente o Presidente ganha piadas nas quais ou ele é ladrão ou corno, eu sou burro, já estou ganhando!!!!” E ficou deliciando a nossa surpresa pela resposta que deu…

Secretario da Comissão de Economia da Câmara dos Deputados, atendi um telefonema em que o interlocutor, de voz arrastada, de pronto foi dizendo “ Me chame o Deputado Francelino Pereira…!! Eu respondi : “ Por favor  quem deseja falar? “ Respondeu: “ É o Presidente…E eu repliquei: “ Presidente de que? ” Ele respondeu com a voz mais ou menos alterada, mas sempre arrastada, de nordestino, “ Présidente da Républica miníno!!!!” Era o Presidente Castelo Branco que fazia as suas ligações diretamente, sem usar secretária… Eu ainda me refazendo do susto nem sei o que eu disse… chamei logo o Deputado e pronto!!

 E por força dessa ligação o Presidente convidava o Deputado Francelino para um cinema no Alvorada. Francelino comentou em voz alta: “ Ou é presente ou cassação. ”

       Acontece que esse Deputado era o Relator de um projeto de lei que tratava da remessa de lucros do capital estrangeiro e de grande interesse do governo. Mas, além de conhecer bem a matéria tinha um perfil independente, era da UDN, partido do governo, mas de um ala progressista denominada Banda de Música, da qual faziam parte José Sarney, Francelino, Ferro Costa, João Agripino, Raul Brunini e outros tantos.

       Diante disso, havia uma preocupação sobre o parecer do relator ao qual ninguém estava tendo acesso.

        O Presidente Castelo Branco, apesar de sua postura de aparente autoritarismo, em realidade não era e gostava da política e se dava ao direito de tratar diretamente com os parlamentares sobre qualquer assunto. E nessa linha convidou o Deputado Francelino para uma sessão de cinema no Palácio da Alvorada. Claro que o convite foi aceito e conta que lá compareceu e assistiu ao filme tranquilo despedindo-se um pouco desconfiado da razão daquela gentileza, já que não era tão ligado assim ao General Presidente. Na semana seguinte novamente recebeu pessoalmente um novo convite e na terceira semana outra vez…sem que o Presidente dissesse qualquer coisa. Na quarta vez ele não aguentou mais e lá chegando perguntou ao Castelo: Presidente não leva a mal de eu perguntar, mas o que é que Vossa Excelência deseja? E o Presidente então botou a mão no ombro dele e disse: “ Eu quero seu apoio ao meu projeto da remessa de lucros”. E teve…

Tempos bem diferentes…..se foram melhores ou piores não vou dizer  deixo por conta de quem queira saber..

2 respostas »

  1. Como voltei ao passado, nem tão perto nem tão distante! Valeu de montão

    Vc só me alegra, com suas postagens, lança um livro, farei a maior propaganda!

    Beijo para vc e Heloisa!!

Excelentes as matérias postadas

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