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E AGORA JOSÉ ?

Nosso ilustre conterrâneo Carlos Drumond de Andrade, em belíssimo poema disse:

“E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José?” Algumas paródias foram feitas como “ E agora João e Agora Mané “, todas no mesmo sentido.

Quando o Presidente Itamar Franco assumiu chegamos ao Gabinete Presidencial no 4º andar do Palácio do Planalto e encontramos as salas vazias, as gavetas vazias e os corredores vazios, quando então ocupou a Mesa e me perguntou: “ E agora Henrique? Como eu já conhecia bem as entranhas daquele ambiente, pedi licença para ir ao 3º andar onde, três anos antes, eu ocupara uma das salas da Casa Civil, como Subchefe de Assuntos Parlamentares , para verificar as antigas estruturas ocupadas por antigos servidores da Casa, que lá ainda se encontravam e com quem tive as melhores relações e confiança e se prontificaram a arregaçar as mangas para uma jornada sem hora para acabar pois necessitávamos enviar ao Congresso, no dia seguinte, uma proposta da nova composição do governo que iria se iniciar. Essa foi a nossa transição, sem gabinetes, sem equipes nomeadas e com um prazo de vinte e quatro horas. Evidentemente já tínhamos conversado sobre o número máximo de Ministros e na prática, bastava que retornássemos as secretarias para a situação de Ministérios com suas respectivas competências. Às 14 horas do dia seguinte, conforme combinado, me apresentei ao Líder do Governo no Senado, Pedro Simon que convidou os Líderes partidários para uma reunião com minha presença quando tive a oportunidade de expor e demonstrar a nossa proposta e a justificativa e ouvir as ponderações e as reclamações naturais. Acordado o texto submeti aos mesmos a questão relativa a natureza da proposição, se iria como projeto de Lei ou Medida Provisória. O entendimento majoritário foi que deveria ser editada uma Medida Provisória o que para nós, Governo seria o mais recomendável. Não esbocei nenhuma expressão que pudesse ser notada pelos interlocutores, até mesmo porque a decisão foi deles, sem nenhuma sugestão de nossa parte.
A partir do dia seguinte, o país já estava governado com naturalidade e sem nenhum tropeço, cada qual com sua missão com maior ênfase na equipe econômica pois a situação do país era só frangalhos. Vale louvar o comportamento dos titulares das pastas que embora fossem integrantes de partidos politicamente antagônicos e adversários focavam seus objetivos unicamente na gestão a que foram cometidos. Destaco ainda que incluiu em sua equipe cinco Ministros de sua confiança pessoal, dentre os quais eu me incluo. Todos nós estivemos sempre conscientes de que a qualquer momento que o Presidente precisasse do cargo não haveria constrangimento em nos afastar. Nenhuma disputa de espaço, de influência ou de poder, valia o lema dos mosquiteiros “ Um por todos e todos por um”.

Faço esse registro em face do momento que vivemos em que o Deputado Jair Bolsonaro eleito, com uma votação expressiva sente o peso de uma esperança dos que o sufragaram e a cobrança dos que a ele se opuseram. E naturalmente deve ter dito aos seus botões:

“ E agora Jair? ”

Com dois meses de transição, contando com o total apoio logístico do governo e com uma numerosa equipe técnica por ele indicada encontra dificuldades para formatar o seu ministério, seja no que se refere à estruturação ou mesmo quanto à escolha dos nomes dos titulares. Fatalmente, com esse interregno entre a eleição e a posse não está imune às disputas a que me referi anteriormente e principalmente por parte de quem deveria estar ao seu lado unicamente pensando no bem do país. Quero lembrar para sua reflexão, de um ensinamento para o gestor: “ Não se nomeia quem não pode ser demitido” e o nosso caboclo mineiro não deixa de nos ensinar que” é melhor ficar vermelho por cinco minutos do que amarelo a vida toda. ”

Vamos esperar e torcer para que o nosso Presidente tenha paz de espírito para nos governar e que não precise se valer do célebre apelo de Voltaire “ Que Deus me proteja dos amigos que dos inimigos cuido eu”

1 resposta »

  1. Senti muita falta dos seus textos, principalmente nos momentos mais tensos do presidente eleito Jair Bolsonaro. Estou muito apreensiva, prevendo muita agitação e sentindo a falta de uma coordenação política firme. Hoje fico lembrando e me perguntando: como você conseguiu?

Excelentes as matérias postadas

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