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REFLEXÕES

Ao fim do governo o Presidente José Sarney decidiu dar sua despedida ao povo que lotava a Praça dos Três Poderes, descendo a rampa do Palácio e acenando o seu lenço branco recebendo aplausos da maioria dos presentes. Eu o acompanhava juntamente com quatro Ministros, Carlos Santana, José Reinaldo Tavares, Saulo Ramos e Borges da Silveira e éramos observados por uma ala de convidados postados dos dois lados, quando tive minha atenção voltada para um cidadão que à medida em que nos aproximávamos procurava se virar de modo a não nos encarar frente a frente. Ocorre que essa pessoa fazia parte daqueles que vivem nos corredores do Palácio e nas proximidades dos gabinetes e que já se preparava para se unir aos novos integrantes do governo que se instalava. Nesse momento, indignado, fiz questão de mostra-lo ao Presidente e comentar a sua atitude, sendo apaziguado por ele, sempre conciliador, me dizendo que não me importasse com aquilo como sendo um procedimento bastante usual de certas pessoas na política.

Dois anos depois, assumindo o Governo o Presidente Itamar me nomeia para a Chefia da Casa Civil e no dia da minha posse sou surpreendido ao ver aquele cidadão a que me referi acima, na fila de cumprimentos procurando me abraçar dizendo sem nenhum rubor na face: “ eu sabia que nós voltávamos…” Mal para ele o fato de eu ter memoria muito boa, inclusive fotográfica.

Assessor do Gabinete da ARENA na Câmara dos Deputados, tinha como companheira a Doutora Ângela Maria Lobo Ribeiro, advogada competente, honesta, leal e que gozava da estima e respeito por parte de todos os seus colegas. Em face seu perfil profissional foi convidada pelo Deputado Pedro Aleixo eleito Vice-Presidente da República para sua assessoria. Ocorre que um outro profissional indicado por um deputado, lutava por todos os meios ser nomeado para o mesmo cargo e conseguindo uma audiência disse ao Doutor Pedro (esse era o nosso tratamento) que precisava confidenciar algo muito grave a respeito da Dra. Ângela, relatando que ela seria comunista. Doutor Pedro com sua docilidade na fala lhe disse: “ Agradeço muitíssimo a sua ajuda, dando-me mais um motivo para convocá-la, sabendo da ideologia  que ela não esconde, ao contrário da sua que eu não conheço. ”

Quando assumi a Chefia da Casa Civil no Governo do Presidente Itamar Franco, dentre muitos fatos pitorescos lembro-me de um cidadão ocupando cargo comissionado no Palácio me procurou para dizer que a sua tia, esposa de um alto personagem da República mandava me dizer que não gostaria de vê-lo demitido. Em resposta disse-lhe que as demissões e confirmações estariam no Diário Oficial dos próximos dias. No dia seguinte saiu sua demissão, motivando seu retorno surpreso ao meu Gabinete. Ao recebe-lo disse-lhe de imediato: “ Você foi demitido para saber que quem decide essas questões aqui sou eu e não sua tia. Agora você me traga seu currículo e informações de seus chefes para eu analisar a sua recondução. ”

Já na mesma semana me encontrava estudando alguns assuntos quando ouvi um burburinho pouco usual na recepção. Chamei minha secretária que me informou que um cidadão insistia em falar comigo, mas, não havia agendado. Como não estava muito atarefado no momento disse-lhe que era preferível atendê-lo do que permanecer aquela situação, mas que procurasse saber o assunto pretendido. Retornando a secretária me informou que ele dissera que gostaria de me falar muito rápido, apenas duas palavrinhas. Embora tenha entendido a metáfora resolvi levar ao pé da letra e dizer que eu o receberia mas para ouvir exatamente e somente duas palavras. O rapaz, muito bem-apessoado e demonstrando certa distinção me cumprimentou com a cabeça e me entregando o seu currículo disse “ quero emprego”, ou sejam duas palavras. Por sua argucia e o bom currículo mandei nomeá-lo.

Uma das minhas missões era o contato direto com os parlamentares e em um desses encontros recebia um senador do “ alto clero” que me entregou uma lista de nomes, dizendo que exigia nomear todos as funções federais no Estado porque ele havia trabalhado pelo impeachment do Presidente Collor. Fiquei realmente estupefato com a sua fala e lhe disse que a sua justificativa não fazia parte dos nossos critérios de movimentação de pessoal e que além do mais não me constava que o Presidente Itamar Franco tenha pedido a qualquer parlamentar apoiar o afastamento do seu antecessor. Ouvi realmente alguns impropérios que me incentivaram demitir os que já teriam sido indicados por ele, mas preferi deixar na contabilidade das perdas e danos. Quanto ao risco de seu afastamento do apoio ao governo eu sabia que era zero, e assim foi.

Estou relatando esses fatos em face da época que estamos vivendo e que o Presidente Bolsonaro deve estar vivenciando. O número de parentes que ele deve estar conhecendo é assustador. Os de amigo de infância de sua família também. O importante, no entanto, é adotar critérios para a condução de seu governo. Na estruturação administrativa nunca se deve esquecer de alguns parâmetros.

Eu sempre procurei me pautar por uma retórica relacionada ao cachorro e o gato.

O primeiro, é estreitamente ligado ao dono e o segundo ao espaço ocupado.

Assim é na administração,  deve-se  levar para seu assessoramento pessoas que além da competência técnica sejam-lhe extremamente leais e de plena confiança. E para a operação da máquina burocrática manter os que tenham a memória do órgão e que ali vêm exercendo suas missões independentemente do governo do momento, alheios à política e ideologias. São técnicos que amam a sua profissão e exercem com lisura as missões que lhe são atribuídas.

O maior erro está no açodamento de demissões em massa como demonstração de força, e à guisa de expurgo ideológico, sem a avaliação necessária e excluindo servidores de longos anos que ainda poderiam prestar bons serviços ao país.

O que nos interessa é que o Brasil ressurja das cinzas a que foi lançado e que os atuais escolhidos pelo povo não percam essa oportunidade ímpar que receberam.

Aprendi com meus conterrâneos mais antigos que a pedra lançada, a palavra proferida, o tempo passado e a oportunidade vencida não têm retorno, passou…. Passou.!

7 respostas »

Excelentes as matérias postadas

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