31 de março

A comemoração dessa data no país, constitui uma das mais controvertidas de nossa história política.
De um lado há quem o faça por razões político-ideológicas, como é o caso do  Presidente Jair Bolsonaro, que contava com a idade de 9 anos quando ocorreu o movimento,  enquanto outros analisam todo o período do governo militar se abstendo das questões de apelo politico referentes a luta armada, torturas e outras contestações.
O fato é que muito se pode dizer a respeito, principalmente se houver uma honestidade intelectual histórica que permita um relato sério e verdadeiro para os que não viveram à época.
Fui convidado por um Professor de Ciência Política da Universidade de Brasília para participar de uma sua aula, na qual eu teria oportunidade de debater com os seus alunos cujo tema seria a história politica contemporânea da qual eu participei.
Depois de discorrer desde o governo de Getúlio Vargas (Estado Novo) do qual eu me lembrava vagamente da vida escolar no seu final, aos meus nove anos de idade, até o governo de Dilma Rousseff em curso naquele momento.
Um aluno, aberta a fase de perguntas, me interpelou sobre o período militar, que segundo ele, teria sido uma época que se equiparasse a um filme de terror em face da repressão diária e da supressão dos direitos de cidadania e sociais. Chegou a citar episódios que, lhe disseram, teriam  ocorridos em Brasília na saída dos Cinemas Brasília e Cultura em que militares ali se postavam para prender os espectadores que ali compareceram para assistir um filme que não fosse do gosto dos governantes. Além disso citava as prisões de pessoas, minhas contemporâneas, colegas de faculdade que segundo ele, nada teriam feito para merecer. Sem mostrar a perplexidade que me tomava, procurei manter a calma para ter condições de dialogar com aquele jovem totalmente desinformado da história.
Inicialmente, procurei mostrar a ele que o nosso diálogo teria que mirar o quotidiano, as pessoas não militantes políticos para que chegássemos a bom termo. Isso porque os militantes tinham os seus limites de atuação e respondiam por eles o que significa dizer que a repressão dirigida à sua ação não alcançava a sociedade como um todo. Eu, por exemplo, funcionário público, servidor efetivo por concurso público na Câmara dos Deputados vivia normalmente, sem nenhuma restrição ou imposição, assim como toda a população de Brasília. Eventualmente se sabia de episódios entre militantes políticos e militares, mas sem uma repercussão direta na população.
Nesse momento fui por ele interrompido, que com o arroubo próprio dos jovens me disse com autoridade “O Sr. me desculpe, mas eu li muito a respeito e sei do que eu estou falando.”  Sem nenhum revide por estar sendo desmentido eu lhe disse “Eu não li nada, mas vivi muito a respeito e sei do que eu estou falando”. Diante disso passei a formular as perguntas a ele, para que com a sua autoridade ter lido muito a respeito pudesse demonstrar os seus conhecimentos.
Inicialmente deixei claro que eu não estava ali para desmentir ou defender questões referentes a torturas e repressões por parte dos militares até por desconhecimento dos fatos e como a pergunta feita por ele foi relativo ao quotidiano dos cidadãos, trabalhadores, estudantes, famílias poderíamos retomar às perguntas para continuar a aula.
Diante do total desconhecimento da turma, senti que eu teria que dar um relato amplo sobre as realizações do período militar, até mesmo porque quando eles nasceram já teriam decorridos treze anos do final do ultimo Presidente militar, João Figueiredo. Ao final da minha apresentação o jovem estava pasmo por saber sobre o desenvolvimento da telefonia, e das comunicações em geral, da tecnologia do sistema elétrico, da educação, dos transportes, da agricultura, da segurança pública, do comercio, da indústria, enfim de tudo que se fez nesse período. Na minha lembrança naquele momento citei:
– Hidroelétricas de Itaipu, Tucuruí, Ilha Solteira e Jupiá.
– Ponte Rio Niterói: com o maior vão em viga reta construído pelo homem e é a 13ª no mundo em extensão. O projeto vinha desde o Império.
– A rodovia Transamazônica que tem 4 223 km e foi feita para levar 4 milhões de nordestinos que sofriam com o flagelo da seca a ocupar áreas pouco povoadas do Norte do país. O presidente Médici, em 1974, cunhou até uma frase de efeito para a missão da estrada: “Levar homens sem-terra para uma terra sem homens” e lhe disse ainda que  Delfim Neto , Ministro da Economia à época disse:  “O Brasil é o país que mais cresceu em toda a América Latina até hoje. Crescemos 7,5% ao ano durante 32 anos.” Em 1964 o Brasil era o 45º PIB do mundo e, 21 anos depois, pulou para a 10ª posição.
Ao final lembrei de lhes dizer que o quadro de Ministros de Estado, foi a elite, despontando Alysson Paulinelli, Ney Braga, Otávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos, Delfim Neto, Haroldo Correa de Matos, dentre muitos outros contra quem nunca se falou.
A surpresa não era na feição só daquele que me interpelava, mas de toda a classe formada por jovens que não viveram à época e que pouco tem de literatura ou documentários a respeito.
Impressionado com essa experiência procurei saber por onde andava uma obra fantástica feita naquele tempo “Amaral Neto -Repórter “mostrando tudo o que se fazia no país. Infelizmente o pouco que existe se encontra, creio que nos arquivos da ANCINE ou mesmo da Rede Globo, sobre o que ninguém sabe dizer a respeito.
A conclusão que cheguei é de que os militares passaram a cuidar da defesa sistemática contra denuncias de torturas, repressões e arbitrariedades e deixaram de mostrar o quanto foi feito pelo nosso país.
Acho que, independentemente de razões políticas e ideológicas há uma questão de natureza histórica que deveria ser resgatada.
Ainda está em tempo.

2 comentários em “31 de março

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  1. Dr Henrique, parabéns pela serenidade ao participar de uma aula dessa magnitude. Não deve ser nada fácil manter a postura diante de afirmações, travestidas em perguntas, por parte de quem não foi bem instruído sobre o período que vivemos sob o regime Militar. Infelizmente, esse foi sem dúvida um grande erro: permitir que pessoas ligadas à educação desconstruissem a história, desinformando os jovens sobre o crescimento do Brasil e tudo que foi feito pelo regime Militar em prol do nosso país!

    1. Obrigado Pelluso. O que mais me preocupa é a desinformação em todos os assuntos. A alienação dos nossos jovens estão cada vez mais virtualizadas. Os grandes mestres da humanidade estão substituidos pelos Iphones, Ipad e congêneres. Vamos ver no que dá. Abs

Excelentes as matérias postadas

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