LITURGIA DO CARGO

A observância dos encargos inerentes à liturgia do cargo é uma dificuldade presente junto aos políticos, em especial parlamentares quando assumem cargos no Executivo. Sempre foi assim.

O problema maior se observa quando o titular tem um temperamento que não se coaduna com a disciplina que dele é exigida, principalmente nos que afirmam ” sou assim e ninguém vai me mudar”

O Presidente Itamar Franco, senador por dois mandatos, não ficou isento dessa ocorrência.

No inicio de seu governo, reagiu quando fiz algumas observações sobre algumas atitudes que a meu ver deveriam ser repensadas, em face da liturgia do cargo. Embora fosse uma pessoa educada, com uma criação tradicional, trazia o cacoete do politico que o impelia ao desejo de contato direto com o eleitor, sem as precauções mínimas  para esse novo momento.

Em face disso era difícil admitir as minhas razões  em especial quando eu argumentava que todas as práticas costumeiras eram de Itamar Franco, mas ali passavam a ser do Presidente da Republica. Depois de pensar um pouco me disse que não concordava e que ia conversar com o Presidente Sarney, seu amigo e mais experiente por já ter ocupado o cargo de Presidente da República.

Vou me permitir transcrever matéria da jornalista Márcia Carmo que discorre sobre o episódio com muita exatidão:

Liturgia do cargo faz ltamar recorrer ao ‘know-how’ de Sarney”

MÁRCIA CARMO

“BRASÍLIA — Se dependesse de sua von­tade, o presidente ltamar Franco não se mudaria para o Palácio da Alvorada, demiti­ría os seguranças e iria ao cinema todos os fins de semana. Nas viagens oficiais a outros países, passearia a pé pelas ruas, apenas com alguns amigos, longe da imprensa. Mas, que­rendo ou não, ele é o Presidente da República, e obedece a seu jeito à liturgia do cargo. “Mas o que é a liturgia do cargo?”, perguntou esta semana ao ex-presidente José Sarney, com quem conversou sobre limites de um homem público. “Eu durmo, sonho, acordo e escovo os dentes como todos os seres humanos”, -disse ltamar. ”0 presidente è uma vitrine sim, e deve se submeter a esta disciplina”, argumen­tou Sarney. Amigos de longa data, não chega­ram a uma conclusão. Concordaram, no en­tanto, que depois do super-homem Collor, a sociedade passou a exigir mais do ser humano que comanda a nação. Recentemente, uma pesquisa  revelou que o índice de credibili­dade de ltamar estava caindo porque a popu­lação esperava atitudes mais rígidas do Presi­dente, que deveria ser um homem de “pulso forte”.

Obediente ás regras do posto quando era presidente da República, Sarney acha funda­mental, por exemplo, que ltamar se mude logo para o Alvorada, especialmente depois das trapalhadas na Casa da Dinda. “É ruim morar no palácio, mas é necessário, ajuda  a organizar a vida do presidente”, defendeu Sarney.

ltamar se acostumou á casa da Marinha que ocupa no Lago Sul, de onde gosta de admirar o cair da tarde. “Parece a Lagoa Rodrigo de Freitas”, contou ao ministro Fer­nando Henrique Cardoso. O líder no Senado, Pedro Simon, concorda com a mudança. “To­do mundo sabe que ele é solteiro, e morando no palácio terá mais privacidade.” Mas Si­mon também acha uma “chatice” cumprir a liturgia do cargo. Lembra que riscou várias cerimônias de sua agenda quando era gover­nador do Rio Grande do Sul.

ltamar e Sarney concordam em que o presidente deve cumprir rotinas, com horário de entrada e saída no ’ Planalto, sobrando tempo para o lazer.

“É muita gente em volta dele o tempo , todo”, comentou um auxiliar. “Não sei como ele agüenta raciocinar.” Quando não está no gabinete, fica trancado em casa, com os amigos  de sempre, livros e fitas de vídeo. Os vôos escondidos de ultra-leve — travessura que cometia até o susto da quintá-feira, quando o ministro Henrique Hargreaves fez algumas manobras radicais que deixaram o presidente  amedrontado e por isso  foram cancelados.

Nas viagens internacionais à Argentina e ao Uruguai, ou estava nas Cerimônias oficiais ou enclausurado no hotel. À, noite, limitava-se a uma dose de champagne nos jantares de trabalho. “Eu não saio porque vem esse mon­te de homem atrás de mim”, justificou. “

Depois desse diálogo, me disse, “continuo discordando mas vou seguir segundo o figurino.”. E de fato, às vezes dava umas escorregadas mas sem nenhum comprometimento.

 Acho interessante que o Presidente Bolsonaro conversasse com alguem que não tivesse a pretensão de mudá-lo, o que é impossível, mas convencê-lo a não deixar Jair Messias falar no lugar do Presidente da República.

 

 

 

 

Excelentes as matérias postadas

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