JOSÉ ALENCAR

Conheci José Alencar Gomes da Silva, há muitos anos quando ainda, servidor na Câmara dos Deputados, fui designado para auxiliar o então Deputado Minoro Myamoto na Cooperativa do Congresso Nacional, órgão destinado ao atendimento dos parlamentares e funcionários, na década de 1970.

Com a pretensão de criar o setor de roupas e utensílios domésticos fui a cidade mineira de Ubá, onde existia uma pequena fábrica de camisas de nome Wembley de propriedade desse cidadão.

Em lá chegando fui encaminhado a uma pequena sala onde funcionava o seu escritório. Após os cumprimentos de estilo relatei o motivo de minha visita, receoso da questão relativa ao cadastro da Cooperativa que não tinha um amplo lastro nacional.

Me adiantando, antes que José Alencar questionasse esse item, informei que meu pai, industrial em Juiz de Fora, embora não pertencesse à Cooperativa e nem mesmo conhecesse Brasília, estaria disposto a dar o seu aval à minha possível negociação.

Calmo, com voz de barítono, e no compasso mineiro, foi dizendo:

“Olha aqui deixa o seu pai de lado. Você vai me pagar? Se vai leva a mercadoria e no dia que a gente combinar você me manda o dinheiro. Se não vai, não adianta aval, não adianta nada.”

Estupefato, até mesmo sem fala, fiquei olhando para ele sem saber o que responder.

Em continuação, voltou a dizer “não precisa ficar aflito não, eu estou vendo nos seus olhos que você vai pagar, pegue o que quiser e dentro de 60 dias transfere o valor da compra para a minha conta no Banco.” E me dispensou.

Negociamos por um período de dois anos sem nenhum problema, quando fui movimentado para outro setor na Câmara dos Deputados.

Vinte e três anos depois, em 1993, Ministro de Estado da Casa Civil da Presidência da República encontro com o aquele, outrora, pequeno industrial, então, dono de um complexo produtor de camisas, roupas de cama e mesa, colchões e colchas, Presidente da Federação da Industria de Minas Gerais, que comparecia ao Gabinete do Presidente Itamar Franco para receber um convite para assumir o cargo de Ministro de Estado da Industria e Comercio. Embora se sentisse honrado com a deferência, recusou, delicadamente justificando a necessidade de sua presença à frente de seus negócios.

Em 1998, Itamar candidato a Governador do Estado de Minas Gerais, naquela fase de montar a chapa buscava o candidato a Senador. Em um domingo foi convidado para um almoço na casa de José Alencar onde seria servido um prato de bacalhau especialmente preparado por Dona Mariza sua esposa.

Encontrava-me no Hotel Othon, onde estávamos residindo quando sou chamado ao telefone para atender ao meu amigo Deputado Leopoldo Bessone que estava ao lado do candidato ao Senado Hélio Garcia que gostaria de falar comigo.

O Ex Governador, sempre muito simpático e matreiro, adiantou que gostaria que eu agendasse um encontro com Itamar para tratar da candidatura ao Senado. Nesse momento, lhe disse que eu poderia providenciar para aquele mesmo momento uma ligação telefônica, sabendo que Itamar tinha muita pressa para resolver essa questão. Destaque-se que as pesquisas mostravam o índice de 30% de intenção de votos para Hélio Garcia.

Com Itamar ao telefone Hélio Garcia lhe disse que gostaria de seu apoio, quando Itamar lhe perguntou se ele também retribuiria da mesma forma, recebendo como resposta que não seria possível porque ele seria supra partidário, ou seja, queria o apoio de todos sem o compromisso de apoiar.

Nesse momento, Itamar pede licença e pergunta a José Alencar:

” Quer ser candidato ao Senado? Sim ou não?”

Embora surpreso respondeu:

“ Uai  você que sabe..eu topo”

 Itamar volta ao telefone e diz a Hélio Garcia que não poderia apoiá-lo porque já tinha um candidato em sua chapa.

Com um mês de campanha Alencar já alcançava o seu oponente nas pesquisas motivando o afastamento da campanha do seu principal adversário e com uma votação invejável se elegeu para a única vaga de Senador pelo Estado Mineiro.

Mas vale a pena recordar alguns lances dessa campanha. Estávamos a bordo do avião Cessna Citation de sua propriedade, quando me entregaram o clipping com as noticias selecionadas. Aparecia a pesquisa do IBOPE com Hélio Garcia tendo 24% e Alencar 3%. No momento procurei não mostrar para ele essa notícia para não constrangê-lo. Do banco da frente ele se vira e me diz:

 “Eu sei que você está escondendo aí esse caderninho para eu não ver, mas não precisa se preocupar não porque eu vou ganhar dele. Ele já correu demais e agora está cansado. Eu estou descansado e vou começar a corrida agora.”

Com mais um mês, Hélio Garcia desistiu de concorrer.

Mesmo nos comícios, sempre com a voz macia e pausada, com um sorriso cativante, ao iniciar costumava dizer que o discurso deveria ser como o vestido de mulher:

 “Nem tão curto que nos escandalize e nem tão longo que nos entristeça”

Em várias de suas falas a tônica era a derrubada dos altos juros praticados no país. Os mais desavisados comentavam que era defesa em causa própria por ser empresário e necessitar de capital de giro. Mera suposição, pois, ele, pessoalmente ou através das suas empresas não eram captadores de recursos. Mas curioso, mesmo entendendo o desconforto natural de conviver com uma carga financeira exorbitante, competindo com a agiotagem, lhe perguntei a razão de ser tão fixado nessa questão, ao que me relatou:

 “Eu saí de casa muito cedo para trabalhar e sem nenhum recurso, razão porque consegui um empréstimo com meu irmão ao qual eu pagava um juros mensal. Certo dia o gerente do banco através do qual eu fazia a transferência me perguntou o motivo daquela remessa fixa mensalmente a que informei que se tratava de um juros que eu devia ao meu irmão pelo empréstimo concedido. Em resposta fui informado que eu não devia pagar tanto pois a taxa cobrada era ilegal, e que o máximo permitido pela lei era de 1% ao mês e assim mesmo somente os bancos poderiam cobrar. Procurei falar com meu irmão imediatamente e quando lhe questionei sobre a irregularidade que ele estava cometendo, ele me respondeu que não me cobrava juros nenhum. A importância que eu lhe pagava era aluguel do dinheiro. Daí pra frente tomei birra com o juros.”

Eleito Senador, graças a sua facilidade de convívio social logo angariou a simpatia dos seus pares e servidores da Casa e em 2003 surge o convite para concorrer ao cargo de  Vice Presidente  da República na chapa de Luiz Ignácio Lula da Silva que após várias tentativas conseguiu se eleger, graças  ao apoio do empresariado pela confiabilidade  garantida por Jose Alencar.

Poucos meses após terminar o governo que integrava, faleceu vítima de doença que bravamente enfrentou durante vários anos.

Uma boa pessoa,  séria, generosa, alegre e que deixou muitos amigos  saudosos por sua agradável companhia.

 

 

 

 

4 comentários em “JOSÉ ALENCAR

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  1. Gostei de saber detalhes do Vice Presidente José de Alencar, que construí um grande império da indústria têxtil.
    Ter se ligado ao Lula, para vice. que com certeza, deu envergadura à sua eleição, fiquei com dúvidas da pessoa que realmente seria.

    1. Agradeço a sua manifestação. Resta esclarecer para sanar a sua dúvida é que ele embora Vice Presidente não se contaminou e contra ele não se verificou nenhuma acusação. Foi um homem honesto

Excelentes as matérias postadas

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