BRACHER

Parei para relembrar meus bons momentos da infância e juventude na minha cidade de Juiz de Fora.

Nessa regressão deparei com uma passagem que me leva a um personagem de bela trajetória, no campo das belas artes.

Nós morávamos na Rua Halfeld n. 758 sobrado e tínhamos como vizinho o escritório do Professor Waldemar Bracher, catedrático de química na Escola de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Homem alto, corpulento, cabelos em desalinho, simpático, generoso, prestativo e sumamente despojado de luxos e tais.

À época da segunda guerra mundial, com a falta de combustível foi um dos primeiros, se não o primeiro, a utilizar o gasogênio na cidade. Tratava-se de um equipamento composto de uma chaminé presa ao para choque traseiro do veículo e um tambor a ser cheio com carvão de modo a ser convertido em combustível. Era uma geringonça que deixava o condutor bastante sujo com sua manipulação.

O nosso personagem era casado com sua amada Dona Hermengarda com quem constituiu uma família exemplar especialmente voltada às artes.

Décio, o primogênito era dono de uma habilidade excepcional na pintura, convertendo as telas em verdadeiros tesouros para os nossos olhos. Uma delas, na minha humilde condição de observador, foi um dos maiores primores de sua execução a bico de pena, retratando a Catedral Metropolitana de Juiz de Fora em obras de reforma. Cada caibro, cada régua, cada reboco foi reproduzido por sua mão e mente abençoadas. Verdadeiro êxtase.

Celina, doce e virtuosa criatura, deixou sua marca na história artística de nossa terra, mas que Deus preferiu tê-la bem cedo em sua companhia.

Nívea boa companheira do caçula, inclusive quanto a detalhes de seus trabalhos.

Paulo, bancário (Banco do Brasil) perfil mais diferenciado excelente profissional e de temperamento social extrovertido que lhe garante boas amizades.

O caçula, para nós então o Carlinhos, consagrou-se na pintura, tornando-se um ícone dos artistas brasileiros com fama internacional e respeitado no círculo de seus pares. Essa veia artística da família vem desde o seu tio Frederico Jr, um mestre das artes que deu exemplos magníficos de sua habilidade. Uma de suas obras que encantam até mesmo os mais notáveis foi uma cristaleira retratada com todos os detalhes, em especial com os copos no seu interior e as portas de vidro devidamente reproduzidos.

Voltando aos idos da Rua Halfeld, Dr Waldemar candidatou-se a Vereador em Juiz de Fora, e resolveu montar no seu escritório o comitê de campanha do seu partido o PSP (Partido Social Progressista) cuja chapa era composta de vários profissionais liberais, dentre eles o meu pai Raymundo Paulo Hargreaves. Com os meus treze anos já comecei a me sentir gente e fui para o comitê para assumir a locução no serviço de auto falantes montado nas janelas fronteiras do prédio, tendo como companheiro Carlinhos contando seus oito anos de idade.  E lá, com o som típico da mudança de voz da juventude eu bradava: PSSSSSSP o parrrrtido das mulllltidões. Para vereador Raymundo Paulo Hargreaves e o companheiro com um outro microfone gritava e também Waldemar Bracher.

A partir daí a nossa convivência passou a ser periódica, eu já estudando o ginásio na Academia de Comercio de Juiz de Fora e o amigo ainda terminando o primário em outro estabelecimento de ensino cujo nome me escapa no momento.

Depois, entrei para o Exército e já cursando Economia na Universidade Federal de Juiz de Fora eventualmente nos encontrávamos socialmente e as noticias davam conta do seu ingresso no campo das artes plásticas dominado pelo talento de Décio e Celina.  Mais tarde tomei conhecimento do seu casamento com a Fani, fidelíssima companheira e dotada de um altíssimo dom das artes, nossa amiga e contemporânea de minha irmã Ruth Maria na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Juiz de Fora, com quem teve duas belas filhas, Blima, jornalista e cineasta  e Larissa consagrada atriz.

Tendo mudado para Brasília, com  a aprovação em concurso público para o quadro de servidores da Câmara dos Deputados soube dos passos do artista Bracher que cada vez mais se projetava na sua nobre arte. Da Sociedade de Belas Artes Antonio Parreiras, foi para Belo Horizonte se aperfeiçoar e de lá para Paris e Lisboa, retornando para Minas Gerais e se instalando na cidade histórica de Ouro Preto.

Nos anos de 1970 em diante, tive oportunidade de rever o companheiro de infância em suas idas à Brasília já então curtindo um sucesso significativo.

Me encontrava em Bangkok, capital da Tailândia, no hall do Hotel Hyatt, quando ouvi alguém me chamando baixinho próximo ao meu ouvido, ao me virar deparei com o meu   querido Carlos Bracher que me brindou com um forte abraço. Após um curto diálogo ele se despedia porque já estava na hora de ir para o Aeroporto com destino a Pequim onde iria expor no salão do Museu Imperial. Era o primeiro artista ocidental a ter essa honra e no entanto, tratou do assunto com a maior naturalidade, sem nenhum gesto de vedetismo ou grandeza.

Faço questão de contar esse fato para comprovar a sua natureza de despojamento de qualquer deslumbramento que jamais ostentou. É titular de merecida fama e lugar de destaque no ranking nacional e internacional das belas artes, mas prefere viver na simplicidade da vida ostentando o título maior de bom amigo, bom esposo e bom pai.

Desejando compartilhar uma alegria,  permito-me formular um convite mesmo àqueles que não têm uma afinidade com a pintura, para buscar no Youtube “ Bracher pinta Ronaldo Fraga ao vivo”  como exemplo, dentre outros tantos, para sentir a alma de um artista que parece sair do seu corpo e assume as suas mãos com a determinação de um leão e a leveza de uma ave deslizando sobre a tela ao som de  músicas de Beethoven, Brams e Bach,para ao final de um curto tempo apresentar a sua obra, sem se perturbar e sem sentir o peso dos seus oitenta anos já completados e bem vividos.

É uma amizade que nos dá muito orgulho.

Excelentes as matérias postadas

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