QUEM FALA MUITO….

Hoje,  decidi mudar o perfil de meus textos, deixando de lado a mesmice das questões políticas, cuidando de reminiscências da juventude.

Em meus tempos de incorporação nas fileiras do Exército, dentre as muitas amizades destaco a de Pedro Alvim de Oliveira, ex seminarista e fluente nos idiomas grego e latim. E, não para demonstrar eloquência, mas por costume, costumeiramente usava expressões nessas línguas.

Uma delas que eu me recordo bem, por ter dado uma bela escorregada, era “áquila non capti muscas,”  e “et non superbus accipere.” Ambas expressões latinas  “ A águia não cuida da mosca” e essa teria respondido “nem nós aceitamos os soberbos

E nesse convívio diário acabei incorporando ao meu vocabulário essas expressões de forma automática, sem mesmo me interessar por seus conteúdos.

Passado um tempo fui transferido para o contingente do Hospital Militar em Juiz de Fora e lá me deparei com um Diretor, Coronel Médico, que usava um linguajar castiço e realmente buscava se postar como um finíssimo intelectual. Estava eu, à época frequentando o curso de piloto civil no Aeroclube de Juiz de Fora, mas, sendo soldado incorporado eu precisava de autorização do Comando para essa atividade.

Ainda recruta, não tinha muita noção da vivência e principalmente da rotina da caserna e, para obter essa licença, que eu almejava, entendia que eu deveria falar com o Diretor, autoridade máxima para a consecução do meu objetivo.

Ocorre que a regra não bem assim tão simplista. Eu deveria procurar o sargento que tratava dos assuntos dos praças na Seção do Contingente, esse por sua vez se entenderia com o tenente comandante do Pelotão, que submeteria o pedido ao Major Diretor Administrativo que finalmente despacharia com o Coronel. Ou seja, bem diferente da minha disposição de ir direto ao Comandante.

Com a maior simplicidade postei-me no corredor por onde passaria o oficial em direção ao seu Gabinete e ao vê-lo prestei a continência de estilo e lhe fiz o pedido de autorização que eu desejava. Homem de quase dois metros de altura, olhou de cima a baixo os meus 1.60m, talvez procurando achar alguma coisa além da baixa estatura física e minha pouca idade de dezoito anos e com ar bem arrogante disse:   “ Áquila no capit muscas

Eu automaticamente, sem nenhuma pretensão, achando até que eu estaria fazendo bonito completando a frase tão erudita, emendei:

et non superbus accipere”.

Ou seja, ele na sua prepotência, minimizando a minha presença disse que deveria procurar escalões mais baixos porque ele, simbolizando a águia não cuidava de moscas, que no caso seria eu, e a minha reposta, inocente, de quem não aceitava os soberbos era um pedido direto para tomar uma punição que no Exército normalmente é cumprida com uma detenção ou prisão, que de fato veio a acontecer.

 No entanto. O meu anjo da guarda deveria estar de plantão, pois o xadrez estava em reforma e fiquei detido no alojamento por 10 dias.

Totalmente ignorante do que estava acontecendo procurei o meu amigo Pedro para relatar o que havia ocorrido. Franzindo a testa, com muita aspereza e estridência decretou:  “qui multum de bono mane in equis loquitur” ( quem fala muito dá bom dia a cavalo).

Não era  o meu melhor dia.

2 comentários em “QUEM FALA MUITO….

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