Pesquisas

 

Ao tempo em que exercia o cargo de Ministro Chefe da Casa Civil no Governo do Presidente Itamar tive a oportunidade de participar de um programa Sem Censura na TVE dirigido    pela minha conterrânea Leda Nagle, com outros convidados, dentre os quais a Deputada Estadual pelo         Rio de Janeiro a atriz Daisy Lúcidi e o Ministro Embaixador      Roberto Campos         que além   da sua eloquência era também muito espirituoso.

O tema, em questão, era relativo a estatísticas e especialmente no tocante às pesquisas feitas na área da produção rural para analisar a     crise      de     abastecimento que se instalou ao final do Governo Collor.

Em dado momento quando lhe foi dada a palavra o Embaixador, depois de discorrer longamente sobre a questão, concluiu dizendo que, embora         houvesse Institutos de Pesquisa reconhecidos, os resultados deviam ser avaliados com muita cautela, pois      a estatística é muito parecida com o biquini “que mostra tudo, menos o essencial.”

Trago essa lembrança pelo fato de estarmos vivendo um momento prévio das eleições em que é oferecido ao eleitor um quadro de candidaturas que ao invés de lhe dar opções viáveis para sufragar, mais lhe causa confusão, especialmente pela indução das pesquisas eleitorais, sem nenhuma credibilidade, em face das conotações políticas e ideológicas com que se conduzem e, pela parcialidade das divulgações através da mídia nacional.

Podemos comprovar essa colocação verificando que ao apresentar e divulgar o resultado das pesquisas, raramente são citados os municípios em que tenham sido realizadas e os critérios utilizados para a seleção do local a ser explorado.

Normalmente a pesquisa é feita nos locais onde se verifica a presença recente do candidato favorito. Os institutos que apresentam um determinado candidato como praticamente invencível desde 10 meses antes do período eleitoral realiza a sua pesquisa onde é certa a preferência nesse e deixa de   pesquisar onde a presença do adversário é frequente.

Exemplo: Entre nós temos um Instituto vinculado a um jornal tradicional que desde o ano anterior emplaca o nome de um ex-presidente em resultado super favorável, imbatível e favorito em qualquer alternativa de candidatos e, de preferência no primeiro turno.

E, em nenhuma hipótese realiza uma pesquisa nas regiões em que o candidato adversário selecionado tenha estado em passado recente, participando de eventos com um apoiamento significativo, pois o resultado naturalmente vai ser desfavorável às suas pretensões dos pesquisadores. Ao contrário a pesquisa favorável ao preferido é sempre em regiões que tradicionalmente lhe são adeptas.

Por outro lado, a estatística compromissada é pródiga em induzir o público-alvo vendendo um resultado falso, mas matematicamente verdadeiro.

Como exemplo relembro um dado divulgado na mídia sobre as profissões em que tenham tido um maior número de profissionais falecidos, em um município   da Alemanha. O resultado foi a do Desenhista Industrial que apresentava o índice de 100% (cem por cento). A questão é que só havia um profissional e esse faleceu atestando assim, que matematicamente é correto o índice de 100% (cem por cento) mas a realidade a respeito da profissão é totalmente inexata.

Da mesma forma em que se divulga o resultado de um concurso em que tenham tido, por exemplo, 100 candidatos, sendo que apenas 30 compareceram e dos quais somente a metade teve aprovação. A divulgação é no sentido de que somente 15% teve êxito, pressupondo que 85% não foram aprovados. Matematicamente é correto, mas a realidade é outra pois 70% não compareceu.

No caso eleitoral, é evidente que há uma parcialidade por parte do Instituto contratado pela campanha do candidato para que seja dirigida ao eleitorado que, por tradição não gosta de perder e é facilmente cooptado mediante o favoritismo proclamado. Internamente, no entanto, para o conhecimento verdadeiro da coordenação da campanha são realizadas pesquisas qualitativas, de conhecimento exclusivo, com maior credibilidade porque necessárias por traduzir uma situação mais realista e, portanto, de maior utilidade.

Em 04 de junho de 1995, o Jornal Folha de São Paulo na coluna Opinião, traz um texto do qual transcrevemos um tópico:

“Entre conhecer resultados de pesquisas eleitorais e votar sem saber a     tendência do    eleitorado, o que o leitor preferiria? Com base nos dados publicados, alguns eleitores optam       por um candidato com possibilidade de se eleger, independentemente de sua preferência; outros simplesmente apoiam “o que está na frente” e há quem se compadeça do “lanterninha”.
Boa parte das pessoas, entretanto, quer apenas estar a par do nome do político por quem o coração do eleitorado balança num determinado momento. Qualquer que seja o motivo, quem vota tem direito à informação -um direito garantido pela Constituição. E uma pesquisa de intenção de voto é uma informação como outra qualquer”

 Por isso é que não raras vezes temos tido uma contradição entre o resultado das urnas e a pesquisa amplamente divulgada no curso da campanha.

O UOL publica uma matéria em 16 de abril de 2018, a respeito das intenções de votos aos candidatos desde 1989, mostrando que no cenário de 2018 somente Lula e Bolsonaro passaram de 17% em abril, e que, desde 1989 todos os candidatos a Presidência da República, eleitos, tinham menos de 17% em abril do ano eleitoral.

Fernando Collor em 1989, disputando com 22 candidatos teve 17% nas pesquisas em abril daquele ano e em junho alcançava 42% e 30.5%, contra Lula que obteve 17.2%   no primeiro turno e 53.03% no segundo turno quando o petista obteve 46.9%.

Em 1994 FHC tinha 21% contra 37% de Lula e conseguiu vencer o pleito no primeiro turno com 54,3% contra 22.7% .

Em 1998 foi a exceção em que FHC liderou com 41% contra 24% para Lula e foi reeleito com 53,07% com 31.7% para o petista.

Há que se registrar a influência  do Plano Ral, tanto em 1998 como 2002.

Em 2002 Lula obtinha em abril, eleito com 46.4% contra 23,20% dados a Serra. No segundo turno 62.27% contra 38.73%

Em 2006 Lula apresentava em abril 41% contra 20% dados a Alckmin, sendo reeleito contrariando os índices das pesquisas com 48,61% contra 41.64% no primeiro turno e no segundo turno com 60,83% contra 39.17%.

Em 2010 Serra liderava a pesquisa variando entre 37% e 42% contra Dilma Rousseff com 28 a 30%. A petista foi eleita com 46,91% contra 32.61% no primeiro turno e no segundo turno com 56,05% contra 43,95% dado ao tucano.

Em 2014, Dilma candidata a reeleição tinha 38% em abril contra 27% dados a Aécio Neves e foi reeleita com 41,59 % contra 33.55% em primeiro turno e 51,64% contra 48,36% no segundo turno.

Em 2018 Lula (preso) apresentava 31% contra 15% dados a Bolsonaro. Em agosto com a substituição de Lula por Fernando Haddad Bolsonaro apresenta 38% contra 29% é eleito com 49% contra 36% no primeiro turno e 55,13% contra 44,82%.

Hoje, os Institutos apresentam um cenário oscilante, mas sempre mantendo o favoritismo do ex-presidente, petista, contrastando com os cenários da rua em que o Presidente participa com uma enorme demonstração de apoio ao contrário do adversário, que não comparece a eventos públicos e quando o faz é apoiado por um pequeno número de apoiadores.

Dessa forma julgo muito sensato seguir os conselhos do saudoso Ministro Roberto Campos, no sentido de ter muita cautela diante das pesquisas.

O tempo dirá…. eu, pessoalmente não acredito no que se fala por aí. Sigo os fatos, contra os quais não têm argumentos.

 

 

 

 

 

 

 

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4 comentários em “Pesquisas

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  1. Com o avanço da idade estou cada vez mais cético sobre as pesquisas eleitorais. Além dos exemplos muito bem citados na matéria, lembramos do Brizola nas eleições do Governo do Rio quando todas as pesquisas o colocavam em terceiro lugar e ele ganhou. Aqui em MG a Dilma era candidata à Senadora e TODAS as pesquisas davam sua vitória: ficou em TERCEIRO lugar com a vitória do Rodrigo Pacheco!

    1. Roberto Campos ,gênio!!!Essa sobre a estatística foi perfeita,não conhecia!!O Neto dele, vem fazendo um grande trabalho no BC!!
      Sobre as suas colocações sobre as pesquisas eleitorais, concordo em gênero, número e grau, e jamais discordaria de um Ministro tão ilustre e sensato!

Excelentes as matérias postadas

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