Leite derramado

Assistimos  a uma série de manifestações, pós eleições, de forma desordenada, muito próprias de explosão emocional da massa. Foram caminhoneiros bloqueando estradas, grupos reunidos à frente de quarteis pedindo intervenção militar outros em redes sociais, tudo sem um objetivo claro e racional, porque proveniente de um misto de decepção e espírito de derrota. Tanto é assim que, abordados, os manifestantes nutriam a esperança de só abandonar o ato se as eleições fossem anuladas ou as Forças Armadas promovessem uma intervenção com a prisão de Ministros e outras coisas mais, o que não  se coaduna com a realidade.

Dentre esses, tive oportunidade de dialogar com um muito amigo dos meus tempos de caserna, oficial general da reserva que não se conformava com a situação.

Com a liberdade própria da relação de amizade eu dizia a ele que era difícil saber se tudo o que nos chega aos ouvidos é verdade ou um misto de fake News.

No entanto o que mais me impressiona era ver o quanto a Direita se submete à agilidade da Esquerda. Enquanto, durante a campanha, a coordenação de Lula acionava o TSE em quase 200 questionamentos, os da coordenação do Bolsonaro não chegaram a uma centena. Da mesma forma, quando vejo as multidões nas ruas e nas motociatas, eu me pergunto onde eles estavam quando o Supremo estava soltando o Lula. Aquela foi a hora do desfecho do golpe programado e executado com maestria debaixo de suas silenciosas barbas. Tivesse havido um protesto dessa magnitude à época dificilmente, esses Ministros teriam a coragem de atuar como atuaram e hoje não estaríamos passando por essa desventura. Naquela hora, o silêncio acomodado foi a mola propulsora. Eu sei que não adianta chorar pelo leite derramado, mas, temos que admitir o terrível erro que foi praticado. Ninguém acreditava que ele seria um concorrente à altura e menos ainda admitia que passássemos a conviver com a terrível e inexpugnável ditadura do Judiciário.

Agora a palavra de ordem é apelar para as Forças Armadas no sentido de uma interferência legal ou não.

Ora, se estamos clamando por uma regularidade obstruída pela insensata ação dos Tribunais Superiores atropelando a Constituição, apesar de ser a única competência resguardá-la, como vamos clamar para que as Forças Armadas se aventurem em um processo sem respaldo jurídico ou constitucional?

Inicialmente aguardando o Relatório elaborado pela Comissão do Exército acreditada junto ao TSE referente a uma fiscalização a pedido do próprio Tribunal (o Exército não pediu), mas com um pensamento distorcido  movido pela imprensa que a cada momento previa um texto perturbando a mente dos decepcionados com o desfecho das urnas.

É claro que se alguém esperava um desiderato forte e contundente contra a Justiça Eleitoral estava completamente iludido, prova é que após a entrega do trabalho ao TSE uma grande decepção abalou os manifestantes, que passaram a ser insuflados pela mídia insana que a todo momento procura incendiar o ambiente.

Em face da repercussão  da Nota Oficial do Ministro da Defesa os três Comandantes das Forças emitiram uma comunicado à imprensa e aos brasileiros se posicionando no sentido da ordem e da pacificação mas chamando os brios dos manifestantes que por acaso se excedem e também sem citar nominalmente  citando  para os Tribunais Superiores se situarem no seu campo de competência e preservar o direito social imposto pela Constituição ao invés de permanecerem restringindo ações acobertadas pela Carta Magna.

Não bastou para silenciar os arautos do caos disseminando falsas interpretações para cada vez mais provocar a revolta dos insatisfeitos.

Mas, não sei se os aliados de Lula e ele próprio já pensaram comedidamente no resultado das urnas que beirou o empate, com uma diferença mínima mostrando que se 60 .345.799 milhões foram a seu favor, 58.206.354 milhões foram contra o que quer dizer que metade do país não o deseja e conforme for o seu procedimento esses tantos podem passar a odiá-lo. Por isso embora o processo eleitoral tenha ocorrido no âmbito da legalidade, não o foi também no âmbito da legitimidade.

O Presidente Bolsonaro em 2018 ganhou o que estava perdido e no curso do mandato, por descuido total e má condução política perdeu o que estava ganho. Se for feita uma reflexão, nem que se restrinja ao período da campanha concluir-se-á que erros inexequíveis foram cometidos permitindo que faltasse esse mínimo de apoiadores para ganhar a eleição. A conclusão é de que esses votos foram dos que se encontravam entre os indecisos que só decidiriam entre Bolsonaro ou voto em branco e em nenhuma hipótese para o petista, que obteve um aumento a seu favor no campo das abstenções que diminuíram por força da ação do STF ( Luis Roberto Barroso e Alexandre de Moraes)  determinando que os Prefeitos garantissem transporte gratuito aos eleitores no dia da eleição.

Mais uma vez vimos o STF e TSE simplesmente desconhecendo a ordem jurídica e em especial a Lei 6091/74 que permite a Justiça Eleitoral na eleição fornecer transporte gratuito ao eleitor da zona rural (exclusivamente). O uso do cachimbo deixa a boca torta e por isso já estando acostumado a atropelar o ordenamento jurídico vão legislando por conta própria.

Jogada maquiavélica sabendo que dificilmente os aliados de Bolsonaro iriam contestar, e concomitantemente impediam a fiscalização das Polícias Federal e Rodoviária Federal nesses transportes viabilizando o trabalho de boca de urna livremente, sem nenhum empecilho.

Chegou a hora de recolher os flaps (como se diz na aviação) com realismo, sem acreditar em milagres e se preparando com calma e competência para daqui a quatro anos retomar o poder de forma objetiva e pragmática sob pena de amargar outra derrota por força de ações impensadas e inconsequentes incabíveis no âmbito da política.

Não me esqueço nunca de um pensamento de autoria desconhecida:

“A política é o equilíbrio entre uns que desejam entrar e outros que não querem sair”.

Os que querem entrar, no entanto, têm que se preparar a contento porque os que não desejam sair estarão mais instrumentados no comando da máquina pública, o que praticamente lhes garante o sucesso nas urnas a não ser que sejam muito incompetentes.

P

5 comentários em “Leite derramado

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  1. Boa Tarde… Hargreaves!
    Infelizmente, vou descordar categoricamente do Senhor. Sobre o “Leite Derramado” se “chora sim”.
    Infelizmente, mais uma vez, a ilicitude sobrepôs a transparência e ao óbvio. A Constituição Federal foi rasgada e iguinorada. E o Povo Brasileiro não tolera mais a corrupção e a ladroagem. Aceitar que o Chefe da ORCRIM volte a cena do crime é um absurdo.
    Grande Abraço, Stefano

    1. Caro amigo Stefano. Creio que vc não leu direito o meu texto, Nós estamos de acordo em tudo. Apenas mostrei que tudo que está sendo feito agora se tivesse feito antes poderíamos ter ganho, a expressão do leite derramado foi para explicitar o atraso da conduta. Apenas mostrei os erros que não são admitidos em política e vc bem sabe disso expert que é. Mas agradeço o seu comentário sempre muito oportuno. Abraços, Hargreaves

  2. Não há dúvidas de que perdemos o “time”! Não podíamos ter permitido a soltura de bandido condenado em instâncias superiores, ainda mais que pudesse concorrer à eleição. Não podíamos ter permitido que um Ministro do STF impedisse que o voto impresso fosse aprovado, porque daria transparência ao pleito, permitindo que as urnas fossem auditáveis, o que hoje é impossível! Penso que o momento é o de organizar a oposição, o que a Direita nunca soube realmente fazer. E impedir que esse governo pratique os mesmos desmandos que já praticou. Não podemos perder a oportunidade de ter eleito um Congresso mais à direita do que nunca!

    1. Caro Pelluso, é exatamente isso. A hora é de reflexão e planejamento para uma oposição responsável fiscalizadora sobre os Tres Poderes, atenta, e consequente. As manifestações foram válidas, principalmente ´porque pacíficas e ordeiras dando uma demonstração que não somos como os fora da lei que não sabem se comportar. Espero que o Presidente assuma a Liderança necessária e eficaz para não cometer novos erros e perder o time a que vc se referiu. Nunca me esqueço de um ensinamento dos caboclos mineiros: Quatro coisas existem que não têm retorno: A pedra lançada, a palavra proferida, o tempo passado e a oportunidade perdida. Esse é o meu pensamento.

  3. Prezado Henrique,
    Que tristeza tudo isso!!!Agora é levantar a cabeça e tentar dar a volta por cima, com sabedoria e atitude!!Que o Congresso seja forte e soberano como nós desejamos e ambicionamos!

Excelentes as matérias postadas

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