INTOLERÂNCIA

1943– Estudando no Pré primário do Instituto dos Santos Anjos em Juiz de Fora. Tratava-se de um Colégio de ensino Jardim da Infancia, pré-primário e Primário, de propriedade de Dona Elvira (me esqueci o sobrenome) que nesse ano transferiu para as Irmãs Carmelitas da Divina Previdência.

Residente no Bairro dos Passos, tinha como colega Nailê Quelote, filha de um Investigador Policial, nosso vizinho na Rua Padre João Emílio, com uma relação de amizade muito boa. Por essa razão íamos e voltávamos juntos nas idas para as aulas.

Assim, já nos preparávamos para voltar para casa, por volta das 16 horas (atrasados portanto) ia saindo quando o seu pai nos avisou que teríamos que passar antes na Delegacia…a assim foi.

Estávamos sentados aguardando as horas quando ouvi a sirene estridente da viuvinha ( era uma camionete da Policia pintada de preto onde os presos eram colocados na parte trazeira gradeada) e sobre a qual tínhamos pavor.. (nem sei porquê) que, chegando entrou pela porta da garagem . Nesse momento vi um senhor já grisalho, algemado….

Foi o primeiro contato visual que tive com um prisioneiro, dando-me uma sensação estranha de insegurança.

Dalí pegamos o bonde que nos levaria até em casa. Volta e meia vinha à minha mente aquela cena…

Meses depois nessa caminhada diária fui tomado de momento de pânico quando a sirene da Relojoaria Meridiano (era usada para alarme de emergência da cidade). Veio a notícia que o Brasil entrara na Segunda Guerra Mundial contra a alemanha, Italia e Japão.. Para mim, em tenra idade não parecia ter muita relevância, a não ser quando uma turba iniciou uma quebradeira de lojas de propriedade de alemães, italianos e japoneses. Pastelarias que sempre foram conceituadas pela excelência dos seus produtos eram destruídas por obra e graça desses arruaceiros. Isso foi o meu segundo contato visual inesperado de teor de violência que marcou em minha mente…À noite a sirene voltava a tocar e os moradores tinham que forrar as bandeiras (vidros) das janelas com pano escuro e com as luzes apagadas ouvindo o ruido de aviões que passavam por força de um treinamento. o tremor tomava conta de nós…

Estávamos então, aos oito anos, alertados psicologicamente, de um sentimento de intolerância que aos poucos tomavam conta de nosso país.

A queda do ditador Getúlio Vargas não resultou em nenhuma movimentação de caráter social, e, assim como 11 de novembro de 1955 com o chamado contra golpe liderado pelos General Lott e Odylio Denys, para garantir a posse do candidato a Presidência da República Juscelino Kubitscheck de Oliveira., mas não deixou de transmitir um sinal de intolerância.

Após, somente o movimento militar de 31 de março de 1964 trouxe momentos de tensão colocando a prova os nossos neurônios.

O fato é que os eventos assinalados demonstraram o avanço de uma cultura intolerante que antes não houvera no Brasil.

Não raro, estamos vendo torcedores de futebol se digladiando pelas redondezas dos Estádios por força de disputas de seus times, quando deveriam estar exercendo a cidadania própria do esporte.

Dezembro de 1963, tumulto generalizado nos corredores próximos do Plenário do Senado Federal, quando vem a notícia da morte do Senador pelo Acre José Kairala que, pacificamente lendo  o Correio Braziliense é atingido no peito com um tiro desfechado pelo Senador Arnon de Melo que buscava atingir o Senador Silvestre Péricles.

Estava eu, então servidor da Câmara dos Deputados, junho de 1967, transitando pelo corredor da entrada do prédio, perto da escada de acesso ao salão verde quando ouço brados típicos de uma discussão e vejo os, então, Deputados Nelson Carneiro de arma em punho, disparando contra o Deputado Sotto Maior já caído e ameaçando dar um último tiro como o da misericórdia, assim denominado o de destino fatal. Nesse momento surge um rapaz, magro, de porte frágil se arremessa sobre o corpo da vítima e serve como escudo para não permitir que viesse a óbito pelo último tiro. Era o Líder do MDB Mário Covas… Diante dessa atitude Nelson Carneiro se afasta em direção à saída do prédio e sendo  interceptado pelo Deputado Gaúcho Brito Velho, psiquiatra de  grande porte  que em alto brado diz Nelson para que eu quero te prender!!!! Teve como resposta um palavrão…

Não são necessárias maiores explicações para caracterizar mais uma cena de intolerância que presenciei.

Os protagonistas das eleições municipais que se aproximam demonstram um grau de incivilidade nunca visto e com a boca cheia dizem que sustentam a democracia..

Tivemos em 8 de janeiro de 2023 cenas horripilantes quando grupo de arruaceiros depredam edifícios da Câmara dos Deputados, Senado Federal e Supremo Tribunal Federal, provocando ação judicial desmedida com a condenação de culpados e inocentes numa só fornada. Tudo em nome da democracia!!!Mas, cheio de intolerância!

As sessões do Congresso Nacional, seja do Senado ou da Câmara é um rol de atitudes intolerantes.

O judiciário que deveria estar, além do dever de fazer preservar a Constituição, como última instância, promovendo o equilíbrio da segurança jurídica no país, tornou-se um polo de provocação da intolerância com suas decisões inimagináveis e inaceitáveis atropelando as disposições da Carta Magna. Seus integrantes que, tradicionalmente, formavam uma casta solene respeitabilíssima, necessária para fazer valer sua autoridade, renunciaram à liturgia inerente à sua investidura.

Mas, infelizmente os fatos demonstram que não é somente entre nós essa decadência.

 Bem próximo, na Venezuela, um país que já figurou dentre os primeiros no ranking mundial exporta miseráveis para o Brasil, diariamente e politicamente navega em águas turvas.

Oriente Médio nem se fala… África não tão sério, mas de igual forma se bicando.

E nós? Para onde vamos?  

Após tantos fatos que presenciei eu achava que já havia estoque suficiente de intolerância para compor o meu acervo, ledo engano, quando vejo dia a dia os fatos se repetindo e o que poderíamos ver nos séculos passados são vistos no século XXI sem nenhum filtro.

Excelentes as matérias postadas

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