Em 2021 lí uma crônica de um colunista que citava o desacerto entre os Poderes da União, ao tempo em que apresentava uma série de fatores que causavam uma anomalia democrática. E vou repetir as minhas aquelas colocações, porque são oportunas nos dias atuais.
Por volta de 1962, quando cheguei em Brasília, um Parlamentar se destacava por si só. Era uma figura reconhecida nas ruas e reverenciada em sinal de respeito pelo que representava. Era o que legislava e fiscalizava os atos do Executivo com desvelo e verdadeiro amor à causa pública. De acusações de maus feitos contra um Deputado, não me lembro. Aliás, para não dizer que não havia cassações de Parlamentares, salvo no período do governo militar, houve sim, no Governo do Presidente Dutra o afastamento dos comunistas e também do Deputado Barreto Pinto, por falta de decoro porque publicou fotos tiradas no final de semana no Plenário do Palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, vestindo cueca, fraque e cartola. No Plenário, nunca se ouvia um palavrão ou ofensa pessoal… Hoje, mais que em 1960, quando Juca Chaves lançava a canção “Caixinha, Obrigado…”, que dedicava um verso aos Senhores Parlamentares! Vejamos: “Dramalhão, reunião de deputado. É palavrão que se tem para todo lado. Se um deputado abre a boca é um atentado e a mãe de alguem é quem sofre toda vez , no fim do mês 120 de ordenado!!!!” O ambiente piorou e a perspectiva é nenhuma….
Um Juiz de Direito, assim como um Promotor, eram quase, apesar do exagero da comparação, um símbolo divino, acima de tudo, do bem e do mal. Mas, por isso mesmo não se conhecia denúncia de venda de sentenças, prevaricação e outras “cositas” mais. Um ministro de um Tribunal Superior então, nem pensar, e só aparecia pelas fotos ou na passagem pelas ruas em direção à Corte à qual pertenciam. Mas, por isso mesmo, não viviam em matérias jornalísticas discutindo questões relativas a processos em tramitação. E muito menos emitindo palpites de caráter político e menos ainda dirigindo xingamentos contra seus pares.
Membros do Tribunal de Contas nem eram conhecidos, limitando-se ao cumprimento de suas funções técnicas como órgão auxiliar do Congresso Nacional, a quem caberia a análise política da matéria. Sobre esses também nunca se conheceu qualquer tipo de indicação de improbidade. Mas também não apareciam na imprensa antecipando julgamentos dos feitos ou emitindo juízo de valor sobre as matérias com avaliações políticas sem ter legitimidade para isso.
O Presidente da República raramente se manifestava, a não ser discursando em solenidades, ou em pronunciamento oficial da Agência Nacional e como autoridade máxima do País, merecia o respeito até mesmo dos políticos oposicionistas que, apesar de com ele não concordar, mantinham a postura condizente com a dignidade do seu cargo.
Hoje, vemos o contrário de tudo isso. Ninguém respeita ninguém e nem a si próprio. É com pena que vimos, na operação Lava Jato, dirigentes das maiores empresas do país, a maior parte de idade avançada, sendo conduzidos, algemados, com toda uma história de vida desmoralizada.
Mas pior que isso é ver a mais Alta Corte de Justiça, depois de analisar e aprovar as decisões vindas da Vara de Curitiba, com delações e devoluções de recursos surrupiados, em passo de mágica oferece ao país um espetáculo dantesco, anulando tudo o que tinha sido aplaudido pela população e dado como nada tivesse ocorrido em um compasso de uma ópera planejada e executada sem a menor cerimônia, e diante de um silêncio perturbador da Nação que parecia não se dar conta do que acontecia… Aos poucos estamos envolvidos em um turbilhão formado pelos desmandos do Supremo Tribunal Federal, pela inércia desavergonhada do Congresso Nacional tomado por uma ação corrompida, em que o interesse público é totalmente irrelevante…
Qual o significado disso? A falência dessas instituições. A descrença popular na elite representativa. Otto Von Bismark, ex-chanceler alemão, em 1879 dizia: “ Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada”. E mais “ Os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis.” E nós, em 2025, podemos vestir essa carapuça naturalmente…
E qual é o caminho? É assistir fazendo-se de morto? Ou agir levando-se em conta o alerta de Bertold Bretcht* (1898/1956), já por demais conhecido:
“Primeiro levaram os negros/Mas não me importei com isso/Eu não era negro/Em seguida levaram alguns operários/Mas não me importei com isso/Eu também não era operário/Depois prenderam os miseráveis/
Mas não me importei com isso/Porque eu não sou miserável/Depois agarraram uns desempregados/Mas como tenho meu emprego/Também não me importei/Agora estão me levando/Mas já é tarde/Como eu não me importei com ninguém/Ninguém se importa comigo…”
Se o povo for às ruas em protestos, cansado de tanta corrupção, do caos na saúde, nos improvisos da educação, do descalabro da segurança, de uma da mais altas cargas tributárias do mundo e, principalmente, pela falta de perspectiva na classe política, ativismo jurídico, correrá o risco de ser preso, como foram os manifestantes em 8 de janeiro, coletivamente igual manada de javalis. Eu não me refiro aos baderneiros. Refiro-me aos que estavam nos estacionamentos dos quarteis que foram ludibriados pelas forças policiais a mando de um certo Ministro cuja competência não se conhece, que afirmaram que estariam oferecendo transporte gratuito para sair dali, quando na verdade estavam sendo encarcerados.
Na realidade, se vamos ao âmago da questão, a expectativa é a de renovação da classe política nas próximas eleições… Sem nenhum desapreço às pessoas ou sua capacidade intelectual, mas o fato é que um cantor que traz o seu carisma junto à tietagem, o atleta pela idolatria, poderá dentro desse ambiente de carência – pasmem – obter uma eleição para um cargo executivo sem nenhuma condição por falta de qualidades, o que será desastroso. O exemplo mais recente na vida republicana foi a eleição de Jânio Quadros, em 1960 ocorrida no bojo de uma figura caricata, que aparentava, ao mesmo tempo, um defensor da moralidade, sem comprovar qualquer tipo de competência administrativa, mas conseguindo obter do eleitorado o seu apoio pela forma grotesca com que se apresentava. Um desastre total… mas mesmo assim foi eleito Vereador, duas vezes Prefeito municipal da cidade de São Paulo, Governador do Estado de São Paulo e Presidente da República…
Será que estamos caminhando para isso?
Os eleitores paulistas, em 1959, deram uma votação estupenda (100 mil votos) para o rinoceronte Cacareco em protesto pela falta de qualidade dos demais concorrentes.
Será possível que não tomamos jeito…!!!! E em 2022 não foi diferente… E o que nos espera em 2026??? *Obs. _ *Bertolt Brecht foi um dramaturgo, romancista e poeta alemão, criador do teatro épico anti-aristotélico. Sua obra fugia dos interesses da elite dominante, visava esclarecer as questões sociais da época.
IMUTÁVEL
Excelente, preciso. Contudo, preocupante, pois, enquanto nosso povo não aprender a votar, só iremos ladeira abaixo.