SEM RUMO.

Eu pensei de já ter assistido tudo de impossível no âmbito de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, considerando minha experiência de trinta e dois anos vividos na Câmara dos Deputados e por consequência no Congresso Nacional.

Há dias uma sessão bem preparada para um show protagonizado por um deputado federal, empresário estabelecido  em Miami,  eleito pelo Distrito Federal   através de redes sociais, que ali compareceu a título de acompanhar um seu irmão, servidor do Ministério da Saúde, da área de importação de vacinas, disposto a fazer acusações vários referentes ao processo de compra da vacina indiana Corona Vix.

Um fato inusitado, foi a ocorrência de um depoimento em dueto, em que se o irmão se enrolasse na resposta o deputado entrava em cena e falava por ele, tudo com o beneplácito do Presidente que agia como um maestro, às vezes até se metendo na conversa para evitar que a fala não saísse a contento dele e do relator.

E, como em todos os depoimentos ali presenciados, não raras vezes, o Presidente completava a frase que seria dita pelo convidado ou convocado, conforme o caso e só dava a sua participação como encerrada após a audiência do relator, ao seu lado, com a pose de um tribuno romano e crente de estar empoderado ao ponto de ser a última palavra, “  Roma locuta causa finita..!

Ora, não bastasse os dois citados, temos ainda que nos contentar com as aulas de Direito e de Medicina, proferidas pelo Vice Presidente da Comissão e de um senador baiano que, invariavelmente, procura algumas palavras difíceis na internet para no momento de colher o depoimento promover arguição a respeito das palavras por ele decoradas.

E, como sempre, a resposta do depoente é sempre alterada para tirar do contexto e favorecer aos desejos do Grupo G7, assim denominada a bancada de oposição plantada na Comissão.

Mas, o ponto alto das reuniões são as falas do senador amapaense que em delírio jurídico chega a ser hilário nas suas colocações. Uma delas é quando se refere sempre ao Presidente da República como sendo um genocida que estará no banco de réu do Tribunal de Haya.

Sinceramente esse comportamento de um Senador, Vice Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito nos permite preferir que se trata de um processo de alucinação e delírio, ao invés de considerar que seja fruto de uma ignorância inaceitável em um parlamentar.

Permito-me, até mesmo como uma forma de ajudar o referido senhor, de forma resumida, expor o que é entendido pelo Tribunal de Haya, com o respaldo da ONU, como crime contra a humanidade e genocídio.

“-Genocídio: significa a exterminação sistemática de pessoas tendo como principal motivação as diferenças de nacionalidade, raça, religião e, principalmente, diferenças étnicas. É uma prática que visa eliminar minorias étnicas em determinada região, ataque grave à integridade física ou psíquica de elementos desse grupo; forçar essas pessoas a viverem em condições desumanas que podem causar a sua morte; transição forçada de crianças desse grupo para outro grupo.

Foram muitos os genocídios ocorridos ao longo da História. Alguns exemplos:1. Genocídio judeu (Holocausto): o regime nazista matou aproximadamente 6 milhões de judeus, . Genocídio cambojano: execução de cerca de 2 milhões de pessoas entre 1975 e 1979, pelo regime comunista Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot;Genocídio em Ruanda: foi um massacre praticado pelo grupo étnico maioritário hutus contra os tutsis, ocorrido no ano de 1994;. Genocídio na Bósnia: ocorreu na cidade de Srebrenica em 1995 o massacre de milhares de muçulmanos bósnios e foi perpetrado pelo Exército Bósnio da Sérvia.”

 Vale perguntar em que item se enquadra o Presidente Bolsonaro, contra quem já existem acusações nos moldes preconizados pelo referido senador, junto ao Tribunal de Haya cujo resumo da imputação transcrevo abaixo:

“A materialidade dos crimes cometidos está devidamente confirmada, vez que se denota do exposto que as ações e omissões do senhor presidente da República afetam, de forma grave, a saúde física e mental da população, colocando-a em situação de risco a um vírus de alta letalidade e com capacidade de disseminação incontrolada com risco de morte ou sequelas irreversíveis”, diz trecho do documento. “Esse comportamento irresponsável e afrontoso às orientações das autoridades internacionais de saúde, com a exposição de milhões de pessoas é crime contra a humanidade.”

É inacreditável a comparação do problema da pandemia no Brasil com os exemplos de genocídio julgados pela Corte Internacional. Só espero que os senhores juízes daquela Corte não pensem que o nosso Parlamento é composto de integrantes de tão baixo nível.

Para coroar o Festival de Besteiras que se nos apresentam a última reunião da CPI com duração de mais de cinco horas foi destinada a ouvir o depoimento de um suposto representante de uma empresa americana propondo a venda de vacinas para o Brasil.

Não vou me ocupar de um relato extenso sobre o processamento dessa operação que aliás, não aconteceu, o que bastaria para não convocar ninguém desse grupo. Mas, conforme foi manifestado pelo Líder do Governo Senador Fernando Bezerra Coelho, foi constrangedor ouvir a fala do depoente. Em primeiro lugar, ficou conhecida a sua posição de um negociador avulso, que teria recebido o auxílio de emergência do Governo, de seiscentos reais, que pediu uma carta de apresentação da empresa americana para atuar como um seu preposto, sem direito de qualquer decisão, para tentar vender imunizantes, no valor de bilhões de reais. Esse por sua vez, conheceu um outro do mesmo tipo, Cabo da Policia Militar de Minas Gerais que conhecia alguns militares que trabalharam no Ministério da Saúde e que poderiam “abrir portas” para a negociação. A operação não foi avante porque o Secretário Executivo não viu nada de concreto nas propostas desse time e encerrou o assunto.

Mas o melhor da festa é que a tal empresa que forneceria as vacinas também tentaria comprar o imunizante nos Estados Unidos, uma vez que não tinha estoque nenhum por não ser fabricante nem distribuidor. Seria mais um intermediário.

É importante destacar que essa “piada” nos primeiros momentos já foi definida, mas os três mosqueteiros buscavam considera-lo como o mais importante de todos os depoimentos para o esclarecimento da “alta corrupção” existente nesse “ imbróglio”.

Concordo plenamente com os que vejam nessa história a bagunça que esteja ocorrendo no âmbito desse Ministério, mas somente isso.

Que existe no mercado uma série de aventureiros com maior ou menor grau de influência junto a negociadores, seja no governo ou na área privada não há a menor dúvida, mas em se tratando de pessoas a exemplo desses acima citados é impossível não identificar de pronto que se tratavam de eméritos oportunistas.

O pior, no entanto, é que foram tratados com muita consideração e recato pela direção da CPI, de uma forma pouco usual deferida aos demais depoentes, porque se constituíam em um verdadeiro arcabouço de possíveis ilações para construção de uma linha de acusação.

Qual o futuro disso?

6 comentários em “SEM RUMO.

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  1. Prezado Dr Henrique, felizmente temos pessoas que ainda conseguem assistir a esse circo de horrores, para nos contar. Sinceramente, só consigo ler o resumo. E mesmo assim, de pessoas que sejam da minha inteira confiança, porque não se pode confiar na mídia tradicional. Esse Cabo da PMMG que o Senhor citou, já deveria ter sido excluído das fileiras da Corporação há muito tempo, pelo número de processos que possue nas costas. É uma vergonha para a Instituição de Tiradentes! Segundo soube, até aluguel saiu devendo de BH, quando aqui serviu no Gabinete Militar, respaldado por um Oficial que deve ter sido iludido como tantos outros por sua lábia, que na gíria policial conhecemos por 171, em referência ao estelionato. Saber que um indivíduo desse consegue projeção nacional (seja ela qual for), só pode ter sido plantado pelas pessoas que o senhor muito bem nominou. Quem sabe um incauto acredita, não é!
    Mas a denúncia de Genocídio, realmente foi a cereja do bolo. Como diz no texto, oremos para que o Tribunal não estenda o entendimento de boçalidade à todo Parlamento Brasileiro. Alguns poucos não merecem!

    1. Caro Pelluso. Muito agradeço a sua atenciosa atenção e mais ainda a colaboração com o relato do perfil desse oportunista. Creio mesmo que uma informação da PM à CPI nesse sentido seria valiosa para que os que o incensaram passassem a devida vergonha.

  2. Como sua fã, não deixo de ler seus artigos. Este sobre a CPI está fantástico, outro dia fiquei assistindo e nem acreditei no que se passava, um abuso de autoritarismo e vaidades sem fim. Parece uma comédia sem pé nem cabeça, e este é o nosso Brasil.

    1. Prezada amiga. Realmente, hoje, estamos vivendo o que Stanislaw Ponte Preta há décadas decretou que estávamos diante de um FBAPA ( Festival de Besteiras que assola o país). O que eu não esperava que o palco fosse o Senado Federal. Lamentável. O que conforta a gente é receber os comentários inteligentes como os seus.

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