Estava trocando mensagens com a Cris, colega e querida amiga da Câmara dos Deputados quando dela ouvi uma observação muito pertinente e atual. Com o advento da informática perdeu-se o costume delicioso de escrever carta.
Passei então a me lembrar do velho carteiro, que batia às portas com uma sacola nas costas trazendo as correspondências de toda a vizinhança, a quem ele conhecia nominalmente e participava socialmente com todos e às vezes até compartilhava um cafezinho, característico dos mineiros.
Mas, o importante é que além da sua missão de, mecanicamente, entregar as cartas, era o mensageiro de boas e má notícias trazidas pelas missivas enviadas pelos avós, pelos pais, pelos namorados, pelos amigos, enfim de toda uma comunidade que se correspondia.
E, me lembro bem do andar cansado mostrando os sofrimentos da coluna e das pernas.
Abro, agora, um parêntesis para uma lembrança em minha passagem pela Presidência dos Correios, quando, incompreensivelmente, tive que abrir uma “queda de braços” com o Ministério do Planejamento que resistia à minha investida orçamentária buscando autorização para a aquisição de coletes para coluna vertebral e meias Kendall para distribuir aos carteiros que, como eu já relatei sofriam de dores lombares e varizes decorrentes do peso que suportavam no seu trabalho.
Felizmente o convencimento veio a tempo, mas o uso passou a ser restrito e localizado em cidades menores do interior do país, uma vez que, nas grandes cidades e Capitais passamos a fazer a distribuição motorizada, seja por motos ou viaturas maiores.
Mas, voltando às cartas que, dependendo de seu conteúdo era geradora de aguçados sentimentos seja para aproximar ou distanciar os seus correspondentes.
Nessa empresa tínhamos também um Coral em cada Região, que divulgava bem os Correios em audições que promoviam e, tinham como abertura padronizada uma canção escrita por Aldo Cabral e Cicero Nunes já interpretada por Isaurinha Garcia, Vanusa e Maria Bethânia intitulada Mensagem que traduzia perfeitamente o sentido da Carta, e por isso vou ocupar um espaço desse texto para transcrever a letra:”
Quando o carteiro chegou e o meu nome gritou
Com uma carta na mão, /ante surpresa tão rude/ nem sei como pude chegar ao portão. /Lendo o envelope bonito, o seu subscrito eu reconheci/ a mesma caligrafia que me disse um dia, estou farto de tí./ Porém não tive coragem de abrir a mensagem/Porque na incerteza, eu meditava/Dizia será de alegria ou será de tristeza? Quanta verdade tristonha ou mentira risonha uma carta nos traz! E assim pensando, rasguei sua carta e queimei para não sofrer mais.”
Já por outro lado Alvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa) escrevia: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não
fossem ridículas. Também escrevi, no meu tempo cartas de amor como as outras, ridículas. As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas. Quem me dera o tempo em que eu escrevia, sem dar por isso, cartas de amor ridículas. Mas afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.”
Além das cartas de amor, as crianças no Natal escreviam ao Papai Noel e nós respondíamos e dependendo do pedido às vezes até presenteávamos.
E na sequência de manter o costume o Presidente Itamar Franco determinou à Presidência do Correio a criação da Carta Social que seria enviada pela tarifa de 10 centavos que existe até hoje, salvo engano.
No entanto, com o tempo e o advento dos computadores a velha prática foi sofrendo o desgaste até praticamente perecer, e, hoje as encomendas, seja de objeto ou documento, são a maior demanda dos Correios através do Sedex ( o Sedex 10 foi lançado em minha gestão).
Mas, eu conclamo que a prática de escrever pode continuar a existir através dos e-mails, ou WhatsApp, no sentido de conversar tal qual fazia com as cartas, ao invés de lacônicas mensagens tipo “bate e volta”.
Mesmo não tendo o calor do carinho que ela trazia em sí, não vamos conseguir substituir as cartas, mas pelo menos manter o seu sentido sentimental tão afetuoso para nós.
Cartas
já enviei e recebi milhares de cartas. Algumas ainda guardo.
Caro Ovidio, faz muito bem em guardar algumas, testemunhas de um tempo de felicidade. Abraços
Já enviei e recebi mulheres de cartas. Algumas ainda guardo. Ovidio Teixeira( não sou anônimo , mas esqueci a senha, rs).
Tema que nos traz tão boas lembranças!
O mundo mudou, acelerou. As mensagens ficaram curtas, mais diretas e práticas.
E como é bom ler um texto assim, tão rico de alma.
Nós agradecemos, Doutor Henrique, sua postagem.
Abrc Cris Moura
De fato, ficaram mais diretas e práticas mas sem sentimento… obrigado pelas palavras.
Boa lembranca!