VIVENDO E PENSANDO..

Nos idos de 1960, cuidando dos meus afazeres na 4ª Cia Leve de Manutenção, em Juiz de Fora, tive que me dirigir ao Quartel General da 4ª Região Militar, onde me encontrei com um amigo e colega de farda se despedindo dos companheiros, já à paisana (sem a farda) por ter pedido exoneração das fileiras do Exército, em face da aprovação em concurso público para os quadros de servidor da Câmara dos Deputados em Brasília.

Dedicando um pouco mais de tempo comigo, relatava o ambiente do seu novo emprego, vantagens financeiras, possibilidade de crescimento na carreira, enfim mostrando o acerto de sua escolha na mudança profissional e ao mesmo tempo buscando me estimular ao mesmo destino.

Confesso que a conversa me balançou e passei a me inteirar da questão.

Tratava-se de uma guinada brusca e significativa, até mesmo preocupante diante das notícias sobre o ambiente político no país e da transição da ida da Capital para o Centro Oeste, tudo ainda muito precário e a nova cidade se apresentando como um canteiro de obras. E pesava ainda o fato de estar cursando já o último ano do curso de Economia na Universidade Federal de Juiz de Fora.

No entanto, pesando os prós e contras, passei a me preparar para um novo concurso que se avizinhava além de convidar mais três companheiros para me acompanhar.

Saíamos do quartel por volta das 17 horas passava em casa para a troca de roupa, um lanche e nos dirigíamos para uma sala no centro da cidade de um amigo que nos cedera e por lá ficávamos até as duas horas da manhã estudando e não mais, porque tínhamos que estar no serviço às 7,00hs. Assim foi por quatro meses até às vésperas do certame que iriamos participar disputando 200 vagas com 5000 candidatos, que seria realizado em Brasília, no Plenário da Câmara dos Deputados e no Rio de Janeiro no Plenário do Palácio Tiradentes, com transmissão, via rádio, direta entre os dois cenários.

Abro um parêntesis, para relatar uma pressão psicológica que nos assaltava, com comentários, de alguns movidos por inveja e outros por questão de amizade mesmo, no sentido de que estávamos nos aventurando em ambiente de políticos que naturalmente já garantiam o preenchimento dos cargos para os parentes e amigos e que iríamos servir de anteparo para essa manobra.

Mas, resolvemos enfrentar ainda assim e morando em Juiz de Fora, preferimos participar do concurso no Rio de Janeiro, onde se reunia a maioria dos participantes.  A própria arquitetura e a solenidade do ambiente e a ordem de manter o mais absoluto silêncio, e a locação dos candidatos com a distância de duas cadeiras entre sí , selecionados pela ordem alfabética dava um tremor no corpo cheio de ansiedade.

Até que quebrando o ambiente soturno, é ligado o som e se faz ouvir uma voz feminina, forte e de muita autoridade dirigindo-se aos candidatos, pedindo a máxima atenção para as explicações necessárias à realização do concurso, após o que, solicitou solenemente que o Deputado José Bonifácio, Primeiro secretário da Câmara, maior autoridade da área administrativa, se retirasse do recinto para o início das provas.

Era a primeira fase do certame, composto das provas de Português, Direito Constitucional, Direito Administrativo, Ciência das Finanças, e Processo Legislativo.

A última prova foi de datilografia em Brasília.

A nossa chegada na Estação Rodoviária nos mostrou a dimensão da nova Capital, o sistema das tesourinhas, as Asas Norte e Sul e os Eixos compondo o imaginário avião. Tudo deslumbrante e os únicos, formando um bloco, apontavam defeitos, eram os cariocas pela perda do Distrito Federal.

Terminado o concurso retornamos a Juiz de Fora, e aguardamos os resultados que seriam publicados no Diário Oficial e noticiado na Voz do Brasil.

Eu, particularmente, participava da política estudantil e era Presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora e por isso tive a ajuda dos adversários que torciam para que eu fosse aprovado no concurso para mudar da cidade. E foi assim que um dos mais ferrenhos líderes da oposição me ligou altas horas da noite com uma alegria efusiva para contar que eu fora aprovado.

A partir daí iniciava a minha jornada como braziliense, precisamente no dia 20 de outubro de 1962.

Os primeiros anos foram bem difíceis principalmente no que tange à moradia, pois havia uma pressão política muito forte contra a nova Capital e a própria administração não se esforçava para sua implementação. A gestão anterior, do Sr Jânio Quadros era favorável ao retorno do Distrito Federal e bradava, sem cerimônia, a sua aversão pela cidade e única herança de seu governo foi o pombal que dona Eloá, primeira-dama, exigiu que fosse construído. Então, nós concursados que tivéramos a informação que haveria moradia para todos tivemos durante um bom tempo que viver na forma de “repúblicas”.

O ambiente político era bastante tumultuado e o clima bastante sombrio prenunciava que algo catastrófico ocorreria. Dentre as ocorrências não muito palatáveis na área militar estavam as eleições do Sargento Garcia, que depois de eleito chamava os Generais do Alto Comando de Gorilas e outras denominações e a do Subtenente Aymoré.

Veio então o 31 de março com o fechamento do Congresso, cassações de Deputados e Senadores de forma desordenada, pois os militares não tinham o trato político e seguiam indicações de políticos sem muito compromisso que cuidavam de afastar os seus adversários. Com isso, parlamentares de alto nível, sem nenhuma tendência esquerdista eram ceifados por essa razão. E tamanha era essa disfunção que esses próprios que os aconselhavam vieram a ser também alcançados pelo Ato Institucional.

O movimento militar tinha como meta, segundo o pensamento do Marechal Castelo Branco, permanecer no Poder por cinco anos e entregar o Governo aos civis e segundo se dizia, na sua intenção era indicar o nome do mineiro Bilac Pinto dentre uns outros poucos, mas não a Carlos Lacerda ou Magalhães Pinto que se julgavam ungidos. No entanto, além de articulações politicas desses grupos havia no meio militar, algo que Castelo não previa, um forte desejo continuísta pelas mãos do Ministro da Guerra Arthur da Costa e Silva, que terminou lhe sucedendo e por infortúnio não terminou o seu mandato por força de um derrame cerebral, que o levou à morte e dando chance a formação de uma Junta Governativa formada pelos Ministros do Exército General Lyra Tavares, da Marinha Sylvio Heck e da Aeronáutica Marcio de Souza Melo,  impedindo a posse do Deputado Pedro Aleixo, Vice Presidente de Costa e Silva.

Nas rodas políticas era bem claro o fato de que jamais os vices José Maria Alkmin ou Pedro Aleixo assumiriam a Presidência em qualquer hipótese.

A propósito lembro-me de uma passagem que mostra claramente essa situação.

Era Carnaval e o Congresso não teve condições de entrar em recesso pela necessidade de aprovar o orçamento o que veio a acontecer nas vésperas dos folguedos de Momo. Com isso o tumulto tomou conta do minúsculo aeroporto de Brasília que não contava também com muitos voos para operar em uma única e pequena pista.

Chega então o Vice-presidente Alkmin que iria embarcar para Minas no Avro que o servia. Esperançosos os parlamentares mineiros liderados pelo Padre Nobre, se insinuaram para um convite para a aeronave que serviria ao conterrâneo, o que veio a se concretizar. Feita então  a lista dos passageiros para ser entregue ao Coronel Comandante do Avião Presidencial, ao recebe-la das mãos de Alkmin, teve como resposta que não seria possível porque a aeronave já estava lotada e só caberia o Vice Presidente.

Um tanto constrangido dirigiu-se aos parlamentares desfez o convite. Apôs sua saída o Deputado Padre Nobre comentou” coitado, não o levem a mal, é que ele está de carona.”

Mas voltando à sequencia que todos já conhecem assumiram os Generais Médici, Ernesto Geisel e Figueiredo pelas mãos de quem se deu a abertura com a eleição indireta de Tancredo Neves e José Sarney, Collor, Itamar,,Fernando Henrique,Lula,Dilma,Bolsonaro e Lula.

Evidentemente há uma longa história a ser contada nos períodos governamentais citados, mas politicamente diante do que estamos vivendo, houve alguma evolução? A democracia tão decantada e tão vilipendiada se fortaleceu?

Permito-me, dizer que em nada se aprimorou e aos arautos da democracia que costumam atacar o período dos governos chefiados pelos militares, como antidemocráticos deviam olhar para os próprios umbigos e se convencer que fazem muito pior e de forma muito sub-reptícia e com total desprezo aos mandamentos constitucionais.

Que lástima…

5 comentários em “VIVENDO E PENSANDO..

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  1. Parabéns nosso Ministro, pela sua trajetória rica em compromisso e dedicação em defesa do Brasil e dos preceitos legais , além da sua lealdade ao melhor Presidente, Itamar Franco, que em apenas dois anos colocou nossa pátria respeitada , unindo as correntes políticas e tendo a coragem de implantar o plano real , que salvou a economia brasileira, gerando estabilidade, crescimento econômico e empregos. Que Deus continue te abençoando e iluminando sempre! Você merece!🙏

  2. Novamente, recebo mais um pouco de real história do Brasil. Que bom que seguiu seu instinto e seguiu em frente. Foi sempre um exemplo de servidor público. Ovidio Teixeira.

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