Plano Real -30 anos

 

 Nessa comemoração do transcurso de 30 anos do lançamento do Plano Real, é de se lamentar que as circunstâncias da vida impedem que o Presidente Itamar Franco aqui não esteja para presenciar a consagração de um dos maiores feitos de sua gestão.

Por outro lado, no entanto, talvez seja a oportunidade de resgatar um reconhecimento do mérito de suas decisões que garantiram a implantação desse  programa técnico-político que nas palavras do Deputado  Luiz Carlos Hauly, “ tirou o país da inflação crônica e da hiperinflação recorrente, estabilizou a economia, facilitou o acesso a crédito para os mais vulneráveis, promoveu o crescimento econômico regular, aumentou o salário-mínimo em termos reais e reduziu a pobreza absoluta” e que a homenagear essa importante passagem histórica da Política Brasileira, esta sessão será a oportunidade de reflexão os frutos colhidos nessas três décadas de avanço oriundos dessa ousada estratégia.

 Ousada estratégia que eu acrescento , do Presidente Itamar Franco que não recebeu em vida o merecimento que lhe seria devido.

Estamos hoje, passados trinta anos e muitos dos brasileiros não tiveram a oportunidade de conviver com esse grande personagem que também na sua passagem pelo Senado Federal deixou sua marca de nacionalista, combativo e de muito patriotismo

Mas, estamos comemorando o lançamento do Plano Real e para não cometer mais injustiças devo dar o testemunho de que esse programa é fruto de uma soma de esforços iniciada pelos Ministros Gustavo Krause, Paulo Haddad, Eliseu Rezende, Wando Borges ( interino) Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero ( a quem o Presidente Itamar em todas as oportunidades o denominava de o  sacerdote do Plano Real ) e Ciro Gomes assim como também os titulares da Fazenda em anos anteriores que tentaram atacar o mal da hiperinflação, cada qual ao seu modo, com planos que não tiveram sucesso elaborados por alguns da equipe do Plano Real. À propósito é salutar uma leitura de uma entrevista concedida pelo economista Gustavo Franco ao Correio Braziliense sobre o transcurso dos trinta anos do Plano Real, que de forma franca e honesta dá uma boa visão da estruturação do programa. Diz ele “Há uma certa mistificação quanto à ideia de o Plano ter sido concebido por algumas mentes privilegiadas no fim de 1993, de que foi tudo pronto, era só apertar o botão está tudo resolvido. Não é assim que funciona a vida real dos planos econômicos. É um processo muito mais complexo, onde, sim ao longo de 1993 nós tínhamos uma equipe de seis ou sete economistas vindos da PUC-RIO que tínhamos muitas ideias pousadas sobre estabilização, misturando o Larida (Lara Resende e Persio Arida) que é um trabalho de 1984, ou seja, de 10 anos antes. Tinha a experiencia de outros países com a inflação parecida com a nossa, tinha coisas novas que ainda podiam ser tentadas. E a solução alinhavada em 1993 estava muito vaga e virou uma coisa mais concreta só no mês de fevereiro de 1994 em torno da escritura da medida provisória que criou a  (URV) Unidade Real de Valor. Depois foi uma encrenca atrás da outra. Você meio que refaz o curso a jornada, todos os dias, várias vezes ao dia, às vezes.” E em outra oportunidade respondendo a uma pergunta sobre a participação do Presidente Itamar respondeu, ao contrário de outros da mesma equipe, ter sido fundamental, pois sem a vontade dele não teria FHC, equipe econômica e portanto, nem Plano.

De forma mais ampla vale a pena, a quem possa interessar, assistir o filme “Real, o plano atrás da história”, muito rico em documentar a história de forma verdadeira e imparcial.

Lembro-me bem das cobranças do Presidente sobre o andamento dos estudos na área econômica, preocupado que sempre esteve na recuperação da nossa caótica economia, tendo como personagem uma Dona Maria do alto do morro que não sabe o que é mercado financeiro, nem mesmo o que seja inflação apesar de sofrer diretamente os seus efeitos.

Mas, não foi só de flores a caminhada dessa elaboração. O presidente sofreu muitas amarguras durante esse período.

O seu Ministro da Fazenda, amigo fraternal de muitas décadas viajou para os Estados Unidos e coincidentemente, teve a poltrona vizinha à sua ocupada por um conhecido empreiteiro. Um jornalista desavisado ou de má fé, publicou uma matéria noticiando que o Ministro da Fazenda estava viajando em companhia do empreiteiro e às custas dele.

De volta ao Brasil, diante da repercussão que a mídia escandalosamente produziu, o Ministro de inteira boa intenção, pede para ir ao Senado e da tribuna daquela Casa expõe o cheque que custeou a viagem. Para todos o fato estaria encerrado. Mas não para o Presidente. Ele me chamou e me ordenou que providenciasse a exoneração do Ministro.

 Confesso que fiquei atordoado julgando mesmo ser um pouco exagerado. O Presidente me olhou fixamente, emocionado e com os olhos lacrimejantes e me disse:” Quando o Ministro da Fazenda tem que mostrar ao Senado o seu talão de cheque que comprova o custeio de suas despesas para provar sua austeridade, é prova de que o Governo perdeu sua credibilidade” prepare o ato de exoneração.

Assim era o Presidente Itamar.

Nos idos de maio de 1994 em conversa com o Ministro Ricupero foi informado que o Programa estaria praticamente pronto para ser lançado, mas que havia uma certa indecisão na equipe econômica, para o lançamento do programa, por conta das eleições que seriam realizadas em outubro daquele ano. E nesse momento o Presidente lhe perguntou se ele também estaria indeciso e diante de sua resposta firme a favor do lançamento imediato foi-lhe dado a ordem para marcar a data em que daria a sua assinatura. Esse é o marco fundamental do lançamento do Plano Real, a garantia da assinatura do Presidente da República.

 Após a saída do Ministro Ricupero do Ministério da Fazenda em plena fase de implantação do Real, foi imensa a pressão para indicar o seu substituto, vinda de todas as esferas e realmente o Presidente não se abalou e esperou o seu “time”.

Estávamos, eu e ele, no Palácio da Alvorada, em um domingo, quando toca o telefone e eu atendi. Era o Govenador cearense Ciro Gomes que gostaria de falar com o Presidente. O motivo era ponderar pela permanência do Ministro Ricupero. Em resposta o Governador ouviu que era assunto já encerrado, e o ato já estava sendo publicado. Nisso, o Governador perguntou se o Presidente já tinha o substituto e Presidente Itamar se manteve em silêncio durante um minuto, no máximo e respondeu tenho sim, é o senhor.

O Governador se exonerou do Governo Estadual e assumiu o Ministério da Fazenda fazendo uma bela gestão.

Nesse episodio eu perguntei a ele quando ele resolveu que seria Ciro Gomes e ele disse naquela hora que ele me telefonou.

Assim era o Presidente Itamar

Julgo a necessidade de relatar esses fatos em virtude dos sucessivos pronunciamentos a respeito desse programa que por ter sido exitoso obteve o surgimento de vários pais, omitindo ou na melhor das hipóteses citando como mero testemunha o Presidente Itamar Franco.

Ao término dessa reminiscência para a tristeza de alguns repito o que o Presidente Itamar respondeu a uma jornalista que o questionou sobre, na opinião dele, quem foi realmente o Pai do Plano Real ?

Resposta curta e rápida: O Povo Brasileiro.

 

4 comentários em “Plano Real -30 anos

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  1. Nosso eterno Ministro, que alegria ver registrado o seu depoimento, que faz JUSTIÇA ao nosso ilustre, dedicado e competente Presidente Itamar Franco! Quanta revolta ao presenciar as injustiças ao não reconhecimento da sua corag

    1. Angela querida amiga, vc sabe a admiração que lhe tenho e todos os seus. A história bem contada é um patrimônio inestimável, como a sua passagem pelo Governo de Minas Gerais que ficou consagrada como a inigualável Secretaria de Justiça. Abraços

  2. Há fatos que merecem a devida abordagem, e somente quem viveu de perto poderia, tão genuinamente, nos reportar àquela época em que o Presidente Itamar levou adiante o Plano Real.

    Parabéns pela postagem. Justa homenagem, fica o registro para a história do país.

    Cris Moura

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