MINEIRIDADE

Mineiro dá nó em pingo d’agua, desconfia da própria sombra e não perde trem…

À propósito me lembro de um caso em que um viajante mineirinho ficou alojado numa pensão no interior de São Paulo e no mesmo quarto de uns cariocas que resolveram zoar com ele… atrasaram o seu relógio enquanto ele dormia…

 Às sete horas o alarme tocou e ele pulou da cama, tomou banho se vestiu para viajar. enquanto isso os cariocas se deliciando porque com o relógio atrasado o mineiro já tinha perdido o trem… Até que tendo tomado o café, passou a despedir de todos que riam às suas custas.  tendo um deles resolvido contar o motivo de tanto riso…. e ele tranquilamente disse: Mas o meu trem é amanhã…….

Outra característica mineira é a desconfiança, principalmente em matéria de negócios.

A familia da minha mãe, Ferreira, é do Triangulo Mineiro, nascida em Sacramento, e até os idos de 1950 as Fazendas dos parentes eram todas separadas pelo Rio das Velhas, tambem denominado Rio Araguari. Em uma delas, do tio Antônio e Tia Bem, todo ano, em minha infância, passávamos pelo menos tres meses na casa deles.

Como eu ficava muito na companhia dele, aprendendo as coisas, eu me inteirava de toda sua rotina, sentado na varanda, na cadeira de balanço, pito na boca e olhando para o horizonte….

Um certo dia, foi avisado que um médico viria à Fazenda para comprar algumas cabeças de gado que já estavam separados no curral. Então tivemos um dia cheio de atividades, matando porco, galinhas e até um novilho, e com as mulheres da casa preparando as quitandas, bolos, para um encontro à noite, convidados vizinhos e parentes, tudo em função da visita compradora das novilhas e vacas, cuja transação se daria no dia seguinte.

Tinha até um sanfoneiro para tocar os “calangos” (música da roça.) cuja estrofe era “calango tango, o calando da lacraia a mulher do Malaquia foi dançar perdeu a saia” ….

Tudo pronto, já ao cair à tarde quando surge no horizonte um carro de luxo e uma carreta preparada para transporte de gado… Tão logo chegou defronte à casa, desce do carro e se dirige ao Tio Antônio, de forma atabalhoada dizendo: O senhor pode mandar embarcar o gado porque eu tenho compromisso em Uberaba…. Nessa hora, para minha surpresa, Tio Antônio deu uma tragada no pito e soltado a baforada, disse: o senhor tá enganado eu não tô vendendo gado nenhum…Deve ser o vizinho sô João…..O médico ficou estupefato e eu mais surpreso ainda…o visitante foi saindo para falar com o vizinho….

Diante de tudo isso eu me arrisquei a perguntar o que estava acontecendo, ele carinhosamente responde… Nos preparamos tudo para o evento ( a venda de gado), matei bezerro, porco, galinha, tudo para o encontro da noite, para gente conversar , dançar,  dormir e de manhã a gente levanta toma café e então negocia…Mas não, o homem chega vai logo dizendo que está tudo pronto que ele está com pressa…..!!! . Então o negócio deve estar muito bom pra ele!  Sem dançar. sem comer, sem conversar…. vai comprando, sem discutir preço…. Não… Pode procurar outro…E se levantou, fechou as portas e começou o pagode (nome dado a esse encontro) que tinha até foguete…só entre nós, mas negócio assim, sem chance…

Para finalizar vou relatar uma historinha, que talvez já seja do conhecimento de todos.

Dois mineirinhos no alto do morro, sentados, proseando, quando ouvem um barulho de batendo asas, muito forte….Olhando para cima avistou um elefante voando…… deu uma pitada e resmungou… mas por mais inusitado que seja, não deu uma palavra… Tempo passado outro elefante voando…. Mais uma vez os dois olham para cima e sem nenhum comentário, apenas puxando o pito mais forte.

Com uma terceira vez, mais outro elefante apareceu, nessa hora um olhou para o outro e disse: “O ninho deve ser aqui perto”; Ele não questiona… se está voando é porque voa….

Vou me permitir transcrever a crônica de Fernando Sabino:

“Ser mineiro é não dizer o que faz, nem o que vai fazer, é fingir que não sabe aquilo que sabe, é falar pouco e escutar muito, é passar por bobo e ser inteligente, é vender queijos e possuir bancos. Um bom mineiro não laça boi com imbira, não dá rasteira no vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, não estica conversa com estranhos, só acredita na fumaça quando vê fogo, só arrisca quando tem certeza, não troca um pássaro na mão por dois voando. Ser mineiro é dizer “uai”, é ser diferente, é ter marca registrada, é ter história. Ser mineiro é ter simplicidade e pureza, humildade e modéstia, coragem e bravura, fidalguia e elegância. Ser mineiro é ver o nascer do sol e o brilhar da lua, é ouvir o cantar dos pássaros e o mugir do gado, é sentir o despertar do tempo e o amanhecer da vida. Ser mineiro é ser religioso e conservador, é cultivar as letras e artes é ser poeta e literato, é gostar de política, é amar a liberdade, é viver nas montanhas, é ter a vida interior, é ser gente”.

Pois é….

8 comentários em “MINEIRIDADE

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  1. Como é bom ler um texto assim, cheio de vida e alegria, nos dá a sensação de ter estado lá naquela fazenda, com seus encantos, arranjos e música.

    Fernando Sabino, bem lembrado.

    Parabéns a Minas, aplausos para a postagem. Excelente, como sempre excelente.

    Com Deus. Abrc.

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