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ESTILOS DE GOVERNAR

Não raras vezes, na ocorrência de “ crises” sou abordado por jornalistas que se interessam em saber sobre a maneira de procedimento em casos análogos no governo do Presidente Itamar Franco, caso em que sempre respondo que naquele tempo elas não ocorreram, porque uma das características da gestão implementada pelo Presidente era a de atenção permanente nos atos de governo e acompanhamento direto e constante das atividades dos ministérios. Para isso na Chefia da Casa Civil eu me mantinha informado, diariamente, através de cada Subchefia (Parlamentar, Assuntos Governamentais, Relações Institucionais e Jurídica), de todo o funcionamento da máquina governamental, fazendo com que nunca fossemos surpreendidos.

Recordo-me de um fato bastante complicado e que por pouco não se transformou em tumulto com consequências desastradas: greve dos petroleiros.

Em 1994 o Presidente Itamar se preparava para ir à ONU para discursar na Assembleia Geral, quando fomos informados da possibilidade de deflagração de uma greve dos petroleiros. Imediatamente informamos o fato que motivou o imediato cancelamento da viagem, ainda que quebrasse a tradição do Presidente brasileiro naquele conclave, sendo designado para tal missão o Ministro das Relações Exteriores. Não faltaram opiniões internas e críticas exacerbadas, principalmente pela imprensa, à decisão de Itamar, mas no seu entendimento, era mais necessária sua presença no país, para pessoalmente coordenar as ações, com a participação do saudoso e competente Ministro do Trabalho, Marcelo Pimentel, Ministro das Minas e Energias, Ministro da Fazenda Ciro Gomes e Ministro do Planejamento Beni Veras, no sentido de evitar que a greve ocorresse, como de fato não ocorreu. E para isso, não comprometeu o orçamento da educação, da saúde, ou da segurança e nem fez promessa que não pudesse cumprir.

De outra feita os agentes da Policia Federal resolveram entrar em greve a montaram um ambiente belicoso à porta da sede da unidade, no centro da Capital, armados e dando tiros para cima beirando a anarquia, chegando ao cumulo de aprisionar o Diretor Geral do órgão. E, diga de passagem, tinham razão quanto ao mérito da questão.

Comunicado o fato, o Presidente Itamar me chamou e me determinou que fosse lá pessoalmente, entrasse em contato com o Presidente do sindicato dos policiais, resgatasse o Diretor Geral que se encontrava preso e determinasse ao coordenador do movimento que encerrasse a greve sob a promessa de que o governo, estando a par de suas pretensões e as entendesse razoáveis buscaria uma solução.

Lá estive, soltei o Diretor Geral e tive do sindicalista a palavra de que iriam estudar a minha proposta e que dariam a resposta até o final da tarde. Decorrido o prazo sem manifestação relatei o fato ao Presidente que imediatamente convocou o General Ferrara, comandante das Forças Aero Terrestres e determinou que naquela noite viesse a tropa de paraquedistas do Rio e prendesse os manifestantes em termos de 300 pessoas salvo engano. Assim foi feito, voltaram ao trabalho e eu voltei a negociar com o Presidente do Sindicato ajustando os termos de suas pretensões às possiblidades do governo e foi tudo resolvido com flexibilidade e demonstração da autoridade necessária ao governante.

Agora, vimos um festival de trapalhadas nas negociações com os caminhoneiros. Quando não faltava mais nada para negociar firmaram um ajuste para o valor do frete. Ora, qualquer neófito sabe que o frete é uma questão de mercado, como qualquer mercadoria, mas com um componente a mais que é a influência direta na composição de custo da produção. Ora, o resultado não poderia ser diferente do que houve com o protesto da agroindústria que terá seus custos aumentados e fatalmente repassado ao consumidor. Ao contrário disso, o mais logico é a redução dos encargos do caminhoneiro para que ele possa ter melhores condições competitivas sujeitas a lei da oferta e da procura e assim por diante. No momento que essas relações entre o capital e o trabalho passam a ser taxadas pelo governo não se pode esperar grande coisa.

No nosso tempo tivemos muitas frentes para encarar como o programa do carro popular de grande alcance na economia do país, com o soerguimento da indústria automobilística, então estagnada, e que para nosso espanto, em primeira mão, não foi compreendido pela nem mesmo pela imprensa especializada que preferiu minimizar a medida taxando como sempre um capricho do Presidente para renascer a fabricação do Fusca.

Em verdade, o Fusca serviu como um ícone para a produção de veículo de baixo custo pois à época o veículo mais barato no país custava o equivalente a US$ 26.000,00 (vinte e seis mil dólares). Entendeu o Presidente que teria que haver um faixa de consumo para atender o mercado de veículos a preços populares. Daí, implantou o Programa que tinha por base: mínimo de 70% de nacionalização, motor de 1 litro e o valor máximo de venda equivalente a US$ 6.800,00, para isso a montadora teria a redução do IPI. Para a adesão ao programa teria quer assegurar a oferta de 100 novos empregos. A primeira a aderir foi a Volkswagen inicialmente com o Fusca e posteriormente com a Kombi. Em seguida foi a FIAT lançando o FIAT UNO, a Ford com o Escort e finalmente a General Motors que encerrava a produção do Chevette Junior, anunciando a dispensa de operários e se preparava para o lançamento do Corsa em maio do próximo ano. O Presidente fechou um acordo com a montadora no sentido de manter os operários que seriam demitidos e a antecipação do lançamento do novo carro. Até hoje as montadoras reconhecem que esse programa que chegou a ser ridicularizado foi a salvação daquela indústria que passava por seus piores momentos.  A propósito é bom lembrar que no curso da implantação do Programa o Presidente adquiriu um Fusca Conversível que se encontra exposto no Memorial em Juiz de Fora, com um pormenor, ao lado do carro há uma estante com a cópia da Noa Fiscal e cópia do cheque com que foi feito o pagamento. Destaco para evitar que algum desavisado possa achar que foi um presente.

Uma bela tarde chega para falar comigo o Governador de Rondônia com um problema da maior gravidade decorrente do defeito nas usinas termoelétricas que atendiam o eixo Ji Paranã – Ariquemes –Vilhena. Uma nova unidade teria que vir do porto de Vitoria e levaria quatro meses para chegar a Porto Velho. Imediatamente comuniquei o fato a Itamar que chamou o Ministro das Minas e Energias e determinou a execução urgente de um projeto de construção de um linhão para ligar a Usina de Samuel a Vilhena. Apresentado o projeto em uma semana, com orçamento e minuta de um edital de licitação de emergência, foi determinada a construção dessa ligação e em três meses a energia elétrica chegava a Vilhena atendendo as cidades de Ji Paranã, Jaru, Ariquemes, para nunca mais depender das termoelétricas, caras e dispendiosas pelo consumo do diesel.

São pequenos exemplos de uma forma diferente de governar.

 

 

 

4 respostas »

  1. Henrique, mais uma vez, vc enriquecendo, a historia do Itamar, que a bem da verdade

    Foi muito injustiçado,pela Imprensa e por muitos brasileiros! Agora este governo até

    Desqualifica as forças armadas e o povo brasileiro! Faz um livro e lança em primeira mão aqui

    Na nossa terrinha11 BEIJO NENECA

  2. Que orgulho tenho em ter trabalhado com homens tão íntegros, competentes e especiais! Sobre esses de hoje, prefiro não comentar…… Grande Abraço,HH .

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