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O que fazer?

De uns tempos para cá virou moda a generalização.

Sempre que ocorresse um evento ou um fato a questão era restrita aos personagens dele participantes, hoje não é mais assim.

Se acontece um crime na Rua Hipotética do Mundo essa via por mais tranquila que seja passa a ser um local maldito. Um dia desses eu ouvia por simples acaso, na fila do açougue (um corte: adoro fila de açougue, onde a gente ouve de tudo um pouco) duas pessoas conversando sobre segurança pública, os cuidados que devemos ter e os lugares por onde passar e uma delas se referia a uma rua como sendo centro de tráfico de drogas unicamente porque na véspera os jornais noticiavam a prisão de um traficante naquele local. Um amigo meu comprou um carro chinês e estava apavorado porque um seu colega teve dificuldade para achar uma peça que ocasionalmente dela necessitou, como se todo proprietário daquele veículo fosse precisar da mesma peça sempre.

Assim, é o que está acontecendo com os partidos políticos e a bem da verdade da política em geral. Tudo está demonizado em face do comportamento de alguns de seus membros.

Para bem compreender a questão vamos nos valer do conceito básico dessas instituições, segundo a Wikipédia (Enciclopédia Livre):

“Política (do Grego: tcoXitíkóç /politikos, significa “de, para, ou relacionado a grupos que integram a Pólis”) denomina-se a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados;).Nos regimes democráticos, a ciência política é a atividade dos cidadãos que se ocupam dos assuntos públicos com seu voto ou com sua militância. No sentido comum, vago e às vezes um tanto impreciso, política, como substantivo ou adjetivo, compreende arte de guiar ou influenciar o modo de governo pela organização de um partido político, pela influência da opinião pública, pela aliciação de eleitores;

Político – É o indivíduo pertencente a um partido, que se preocupa em obter aceitação da população para ascender a uma determinada posição. Participa ativamente de política partidária. Tem o poder de formar opinião pública.. Também pode-se considerar político alguém que manipule e influencie a opinião de um determinado grupo em favor de uma ideia.

Partido político é um grupo organizado, legalmente formado, com base em formas voluntárias de participação numa associação orientada para ocupar o poder político.

É um grupo organizado de pessoas que formam legalmente uma entidade, constituídos com base em formas voluntárias de participação”

Como se vê, em nenhuma dessas conceituações encontramos a corrupção, a imoralidade, a deslealdade como fundamentos básicos em sua formação.

Por isso não ser compreensível essa idiossincrasia contrária a esses institutos que são fundamentais na democracia, desde que, claro, sejam exercidos e praticados conforme prevê sua essência.

Mas, para isso é necessário que, principalmente a imprensa e todos instrumentos de formação da opinião pública, incluídas as redes sociais, não generalizem as más condutas sob o risco de inviabilizar o processo democrático em nosso país.

Pelas últimas estatísticas o MDB conta com dois milhões e meio de filiados, o PT com um milhão e meio e o PSDB com um milhão e trezentos mil, PTB um milhão e cem mil e assim por diante. No entanto, se há processos ou denúncias contra um certo número de membros desses partidos, e vamos exagerar citando uma centena, a repercussão é sempre em cima da legenda partidária o que abrange todos os seus filiados.

Ao aconselhar um amigo para se filiar a um determinado partido, de grandes tradições, fui questionado pelo fato de a imprensa ter divulgado que essa agremiação estaria envolvida em um escândalo. Ainda bem que, ponderado, concordou em me ouvir que eu não estava sugerindo uma sociedade com algum corrupto, mas, ao contrário eu o convocava para se juntar a milhares de filiados sem nenhuma culpa pelo ilícito divulgado.

Eu nunca votei no Partido dos Trabalhadores (PT) mas não concordo com a forma com que se referem aos seus filiados. Qualquer pessoa que se identifica como sendo petista é estigmatizado pelo fato de ter havido desvios de conduta por membros de seu partido, ainda que nenhuma participação tenha tido na história. E em verdade conheço pessoas da mais alta dignidade, intelectualidade e capacidade administrativa filiados a esse partido e que jamais cometeram qualquer ilicitude. Mas a generalização é a forma mais cômoda de se conduzir. O que temos que fazer é lutar pela moralização e participar ativamente nesse sentido.

A minha geração viveu um período em que um indivíduo ao ser identificado como parlamentar era reverenciado e tratado com o maior respeito.

Gosto muito de citar um fato ocorrido comigo, recém nomeado por aprovação em concurso público, como servidor da Câmara dos Deputados, lotado na Comissão de Economia, fui abordado por um senhor esbelto, grisalho, com voz de tenor que ao me pedir uma ajuda se identificou como sendo o Deputado Adauto Lucio Cardoso. Ao me deparar com aquela personalidade fiquei trêmulo de emoção e fiquei balbuciando as palavras, até que me refazendo do susto me desculpei dizendo a realidade do que ocorria, pelo muito que ele representava o que poderia ter ocorrido na presença da maioria que compunha o nosso Legislativo de então.

Hoje o conceito mais generoso que se tem do político é o de se considerar alguém que não sabendo fazer mais nada, se serve dos poderes que a política lhes dá e consequentemente o mando para “se governar”.

Não sei se ainda é tempo, mas ao ponto em que chegamos com atropelo institucional com os Poderes que constitucionalmente deveriam ser harmônicos e independentes entre si, se acotovelando e passando uns sobre os outros, com a judicialização da política ou a politização da Justiça (não sei qual é a pior) e primazia do Ministério Público em disputa com a Policia Federal, a luz do túnel está cada vez mais longínqua.

Nunca imaginei, mesmo antes de me formar em Direito, a hipótese de assistir a quebra total da hierarquia, principalmente na área judicial. Quem poderia, em sã consciência, supor que um Juiz de Primeira Instância vem a pública se referir à uma Desembargador, ou Ministros do STJ ou do STF de forma depreciativa ou vice-versa. Os procuradores se referem aos membros dos tribunais sejam eles de quaisquer instâncias, da forma mais desrespeitosa como se colegas fossem ou pior, se lhes fossem subordinados.

A ordem jurídica, último baluarte de segurança do cidadão, está avacalhada e a um passo da anarquia.

Confesso que ao redigir minhas petições em processos nas Varas Cíveis ou de Família, às vezes, interrompo a escrita para avaliar se os Códigos ainda estão valendo e se ainda vale a pena litigar. Que pena….

Aproximam-se as eleições e até agora não sabemos quem vai disputa-las e menos ainda o que honestamente é proposto a ser feito. Qual o programa de governo, quais as soluções viáveis para nos tirar desse “ imbróglio”? Só ouvimos trocas de farpas de xingamento e o povo atônito sem saber qual o seu futuro.

Me dói, ter que escrever essas linhas, parecendo que sou sempre negativo, mas eu já vivi bastante curtindo um tempo que tínhamos o direito de esperança. Quem sabe o melhor é curtir a letra do brilhante compositor Jorge Aragão:

“Tudo nesse mundo é tão comum

Todo mundo é parte do princípio, meio e fim

Preto, branco, rico, pobre tanto fez

Eis aí o X, ninguém resolve essa questão

Tire sua onda enquanto é tempo vá gastar seu tempo por aí “

 

9 respostas »

  1. Como sempre, suas reflexões são estupendas! Sempre que ouço essa frase, me lembro de você: “Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não quiseram quando podiam”. François Rabelais. Já você, sempre o fez, e continua fazendo a diferença! Parabéns, Dr. Henrique!!!

  2. Como sempre, suas reflexões são estupendas! Sempre que ouço essa frase, me lembro de você: “Conheço muitos que não puderam, quando deviam, porque não quiseram quando podiam”. François Rabelais. Já você, sempre o fez, e continua fazendo a diferença! Parabéns, Dr. Henrique!!!

Excelentes as matérias postadas

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