MEUS CAMINHOS (2)

Volto ao relato iniciado em “Meus Caminhos” e abro um parêntesis para quando da minha incorporação ao contingente do Hospital Geral de Juiz de Fora.

Ainda no princípio de minha jornada, quando ocorreu o episódio do banho frio, fui escalado para guarda noturno e no posto de sentinela situado em um barranco na divisa com o 10º Regimento de Infantaria  que dava frente direta e sem nenhum obstáculo visual para a sala do necrotério do nosocômio.

Quando assumi às 20 horas as janelas do prédio estavam fechadas, mas por volta das 23 horas, tendo saído por quinze minutos para um lanche, quando retornei o visual era outro: janelas abertas, media luz e um corpo estendido sobre a mesa funerária.

Não preciso dizer que um frio gelado percorreu minha espinha dorsal, sem dizer que já sentia um certo tremor, agarrado à submetralhadora, marca INA denominada por “Lurdinha” e que disparava 600 tiros por minuto.

Eu ali, impávido tentando não olhar para o falecido, já se aproximando das vinte e quatro horas e me assaltando o “mito da meia noite” quando ocorreu um barulho forte às minhas costas, dentro de um bambuzal ali existente e que me fez, virar de frente para o “inimigo” rapidamente, e acionar o gatilho da arma, depois verificado que foram detonadas 60 balas, e o invasor foi identificado como sendo um gato preto de grande porte.

Rapidamente a patrulha chegou e ainda me encontrou pálido com a arma pendurada e pronto para ser recolhido ao xadrez e, no outro dia, receber o veredicto de ficar detido por cinco dias e ressarcir o valor correspondente ao preço da munição gasta inutilmente.

Cito esse fato para que os apressadinhos que ficam exigindo participação de integrantes das Forças Armadas em policiamento urbano, entendam que o recruta não tem preparo para esse tipo de missão.

O ano de 1955, pelo menos no âmbito do Hospital, corria dentro da mais perfeita normalidade e tranquilidade e, com minha promoção a Cabo, não tive que voltar às missões de sentinela e os meus plantões eram tirados na própria unidade .

Como se tratava de ano eleitoral, era bastante comum ouvir alguns comentários de natureza política dentre os oficiais (10 médicos e 1 dentista e um oficial de Infantaria) e à boca pequena entre os sargentos (20 enfermeiros e dois burocratas). Dentre as praças, nem se falava a respeito.

Curioso, prestava atenção nos comentários, diante do clima que se criava, divulgado pelos jornais (à época, em sua maioria escritos) referentes aos movimentos do jornalista Carlos Lacerda e próceres udenistas propagando um golpe de Estado se o Governador de Minas Juscelino Kubitscheck de Oliveira, ganhasse as eleições.

Interessante era o fato de que essas lideranças lançavam candidatos a concorrer nesse pleito, mas já avisava que tentaria impedir a posse do adversário que porventura viesse a se eleger.

No âmbito do “meu universo” os poucos que ali conviviam se dividiam quanto ao assunto, ao passo que dentre os sargentos não havia nenhuma divergência, ou seja, todos eles eram juscelinistas.

Em dado momento, por volta de setembro, lá esteve, em visita aos oficiais, o Comandante de uma unidade vizinha, de manutenção de veículos, (para onde eu seria transferido e promovido a terceiro sargento) e todos se fecharam em uma sala que, conforme já registrei era um prédio mais antigo que não permitia muita confidencialidade nas conversas ali tratadas e, nesse caso, eu pude entender que se tratava de uma conversa de caráter político e direcionada ao grupo Lacerdista.

Do lado de fora o sargento mais graduado que cuidava da Administração e do Pessoal, esbravejava em tom bastante discreto em sentido contrário, ganhando o apoio dos demais seus pares. E no meio da conversa deles, um ou outro me olhava, sentado atrás da escrivaninha e me perguntava o que eu achava e eu respondia apenas que não sabia do que se tratava.

À medida que o tempo passava o clima  político no país mais se incendiava e a questão passou a ser discutida mais abertamente no seio dos quarteis, principalmente quando  o Vice Presidente Café Filho recusou a punir um coronel, Jurandir Mamede,  que à beira do tumulo do General Camrobert Pereira da Costa pronunciou um discurso, de caráter puramente golpista, conclamando uma intervenção militar para impedir a posse de Juscelino, além de se referir ao General Lott , Ministro da Guerra, de forma desrespeitosa. Diante da imobilidade do Presidente, o General pediu exoneração do cargo, o que de fato, era um grande presente para as hostes Lacerdistas. No mesmo momento era empossado o seu substituto que já se encontrava no Palácio do Catete demonstrando que todo esse desenrolar era adredemente programado.

No entanto, por iniciativa do General Odílio Denys, Lott foi convencido a agir e não permitir a consolidação do golpe já em curso, quando decidiu imediata ação, a começar pelas unidades sediadas na Vila Militar do Rio de Janeiro, promovendo a intervenção militar , qualificada  como um contra golpe,  que garantiu a posse dos eleitos Presidente e Vice Presidente, com a escolha do Senador Nereu Ramos como Presidente do Congresso Nacional,  determinando em seguida, o retorno aos quarteis de todo o efetivo  por ele comandado.

À essas alturas, com toda a guarnição em Juiz de Fora, no âmbito da 4ª Região Militar, de prontidão, no meu canto procurei saber se teria havido alguma discrepância no cumprimento das ordens superiores.

O resultado das minhas informações mostrava que o Comandante da unidade vizinha que visitara a poucos dias o Hospital estava preso e em sua unidade nenhuma viatura foi deslocada com destino diverso das ordens do Quartel General. No Regimento de Infantaria vizinho, foram presos cerca de cinco oficiais e somando todas as unidades a totalidade de detentos atingia o máximo de vinte. Ou seja, na 4ª Região Militar e 4ª Divisão de Infantaria havia um total de 20 insurgentes e dentre eles 1 comandante de uma unidade de manutenção de veículos militares, 1 comandante de um Esquadrão de Reconhecimento Mecanizado, com um efetivo de no máximo dez oficiais e uns 30 sargentos, além de 100 praças, e o restante oficiais subalternos sem comando.

Pelos jornais sabia-se que no Exército não se registrava nenhuma resistência e que na Marinha, alguns setores eram comprometidos com a suposta insurreição, evidenciada pela saída do cruzador Tamandaré levando Lacerda, Carlos Luz (no exercício da Presidência), ministros e mais alguns parlamentares, tendo inclusive recebido disparos de artilharia do Forte Copacabana. O foco maior, no entanto, era na Aeronáutica sob a Liderança de Eduardo Gomes, oficial de altíssimo gabarito que jamais lançaria a sua Força em uma luta fraticida.

A imprensa que insuflava os devaneios de Carlos Lacerda, se acomodou e apoio popular foi insignificante.

Para mim, curiosíssimo, era difícil entender tudo isso, em que lideranças políticas contando com um, “L’armata Brancaleone” pretendiam impedir a posse de um Presidente da República eleito legitimamente, sem nenhuma comprovação de fraude, mas que segundo eles não poderia nem mesmo ser candidato.

A frase sempre repetida por Carlos Lacerda referindo-se a Getúlio Vargas em 1950 era “não pode ser candidato e se eleito for, não toma posse”.

Iniciado na política apenas no âmbito escolar, através dos Diretórios Acadêmicos e cheio de fantasias e ilusões. as lições que recebi vistas do meu cantinho sagrado, foram de grande utilidade.

Nas Forças Armadas, existe um ser superior que é o Espirito Militar, onde reina uma série de mandamentos como a disciplina consciente, patriotismo e hierarquia.

É claro e evidente, que todo o indivíduo tem a sua ideologia política, os seus critérios, mas lá dentro, engajado, reina a voz do comando, e se assim não fosse seria o caos.

Quando pesquisava silenciosamente o posicionamento de cada um, a mim me interessava saber o famoso “e daí??”.

O que iria acontecer se eclodisse um movimento nacional?

No Hospital Militar fossem todos os oficiais médicos favoráveis a Carlos Lacerda, eles deixariam de atender os que não fosse dessa mesma facção política?

Na Unidade de manutenção de veículos militares com efetivo de mecânicos esse Comandante revoltoso conseguiria no máximo impedir que as oficinas parassem de trabalhar, e assim por diante.

Nas unidades de tropa, há uma cadeia operacional hierárquica, devidamente estruturada com a composição de oficiais, graduados e praças, que atuam de forma harmônica atendendo a um comando único que para ser descumprido exige uma enorme ação de todos os segmentos que a compõem.

No episódio do 11 de novembro, será que todos os oficiais, sargentos e praças que se deslocaram no Rio de Janeiro, tinham o mesmo pensamento sobre a situação política do país? Posso afirmar categoricamente que não.

 Nessa tropa havia eleitores multipartidários, mas naquele momento havia uma ordem a ser cumprida, insofismavelmente, traduzida pela voz do Comandante de cada unidade. E aquele que disso discordasse, ainda no quartel, se apresentaria ao seu superior imediato entregaria as armas e diante de sua posição seria preso

Eu mesmo, tive oportunidade de comprovar essa linha de raciocínio, através de um grande amigo, convocado para seguir junto as tropas do General Olympio Mourão rumo ao Rio de Janeiro no dia 31 de março de 1964, partidário do PTB, tinha o Presidente João Goulart como seu ídolo máximo.  Diante de minha interpelação de como iria se comportar, a resposta foi de que naquele momento ele era um graduado do Exército Brasileiro e arma que levava em suas mãos não lhe pertencia e que estaria ali para cumprir as ordens que recebesse.

Convidado por um Professor de Ciência Política proferi uma palestra para seus alunos universitários. Na oportunidade, um aluno me perguntou o que aconteceria se o Presidente da República, Comandante Supremo as Forças Armadas, se dirigisse a uma unidade militar e desse uma voz de comando para a realização de determinada ação.

Mostrou-se surpreso e atônito com a minha resposta de que, de imediato, nada aconteceria, não por insubordinação, mas em face da quebra da espinha dorsal hierárquica exigido no esquema operaciona

E expliquei que desejando o dignatário, determinar uma ação, seja ela qual for, deve se dirigir ao Ministro da Defesa que por sua vez acionará o Comandante da Força para transmitir a ordem para o Comandante da área respectiva e desse para a Região Militar e assim por diante até chegar na unidade ou unidades responsáveis pela execução.

Se não for cumprido esse ritual torna-se impossível a consecução do objetivo que estará a cargo de uma corrente previamente determinada cujos elos devem ser mantidos sob pena de total subversão da ordem.

A razão de ser desse relato, vai um pouco além do interesse de compartilhar os meus caminhos, pois há um conteúdo de realidade dos bastidores do quotidiano na caserna que talvez possa ser útil para a compreensão dos civis que alimentem fórmulas milagrosas envolvendo a participação dos militares na formulação dos seus interesses ideológicos, filosóficos ou político partidários, pois, mesmo com as progressivas mudanças culturais o sentimento básico da disciplina não se desfaz.

Só mesmo quem conviveu com essa realidade entende o alcance desse contexto. Na verdade, as coisas não são tão simples como podem parecer.

 

 

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2 comentários em “MEUS CAMINHOS (2)

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