CANDIDATO

Me ocuparei de um tema bastante espinhoso e talvez até inoportuno, mas, o faço, por se tratar de uma questão que há muitos anos venho elucubrando e em alguns casos questionando presencialmente.

Trata-se da opção do ingresso na carreira política por parte de profissionais liberais, funcionários públicos, operários, donas de casa e de tantas outros atividades.

Normalmente, um grande numero desses agentes passam a desfrutar ( se eleitos) de um padrão de vida muito superior ao  obtido até então. E inusitadamente não se apercebem de que é um ingresso eventual, com data marcada pois de quatro em quatro anos (no caso dos deputados) precisam renovar o contrato e com isso ter que dispor de uma soma de recursos significativos que, lamentavelmente no país, é exigido para o financiamento de uma campanha.

Nessa hora, aqueles que não dispunham de uma situação estável que garantisse seu status vitae, independente das regalias congressuais, passam a sentir na pele os horrores de um endividamento decorrente da necessidade, agora vital, de uma renovação de seu mandato.

São quatro anos nababescos que dificilmente são tratados, responsavelmente, com uma poupança mínima que possa estar disponível na época própria que fatalmente baterá às suas portas.

Um exemplo prático tive oportunidade de conhecer, nos idos de 1968 em que tendo havido algumas cassações de parlamentares foram convocados a assumir os suplentes, independentemente do número de votos obtidos. Veio, então, para assumir um deputado que recebeu 166 votos.

Era um senhor de certa idade e que trabalhava como auxiliar de pedreiro e pintor de paredes, sem o curso primário completo e de nível social e de renda familiar bastante precário.

Veio para Brasília com a família, composta de esposa e três filhas, salvo engano, todas também do mesmo nível do pai excetuando a profissão.

O resultado, que não poderia ser outro, foi desastroso com todos esbanjando o que o pai recebia, como deputado, vivendo a fantasia de uma vida irreal e ao final do mandato nem legenda partidária existia para uma reeleição, absolutamente inviável.

O ex-deputado teve que devolver o apartamento funcional que usava, sem remuneração para seu sustento, ficando vivendo na rua como mendigo, a família desestruturada, cada qual no seu canto.

Claro que o exemplo não constitui regra geral, mas, não pode ser desprezado.

O que eu pretendo dizer é que aquele que ingressa na política deve fazê-lo por vocação e não como profissão, devendo exercer o seu mandato sem prejuízo de sua atividade  privada e vislumbrando uma reeleição como uma possibilidade eventual que possa ou não acontecer.

Infelizmente a solução para esse dramático destino está longe de nossas mãos, pois, além do envolvimento do perfil de cada um, há o inexplicável custo de campanha que acaba sendo vinculado ao financiamento público ou de recursos advindos do meio empresarial e diretamente aos partidos que distribuem essa benesse da forma que bem entender e sem nenhum compromisso de distribuição equânime dentre todos os candidatos. O fato é que nem sempre a eleição estará relacionada diretamente ao desempenho pessoal do postulante pois na maioria das vezes está submetido ao comando do partido.

Além disso tem ainda a determinação legal obrigando os partidos compor sua chapa obedecendo a proporcionalidade de negros e mulheres, o que é feito unicamente para o cumprimento dessa regra sem qualquer garantia de apoio direto ao candidato. Mas, acima de tudo isso está a espada de Dâmocles, representada pelo sistema proporcional, permitindo que uma soma vultuosa de votos dados a um candidato seja válida para a eleição de muitos outros que não foram escolhidos pelos eleitores.

Embora não seja meu desejo funalisar (como diria o saudoso e brilhante amigo Marco Antonio Maciel) o melhor exemplo está nas eleições do humorista Tiririca e do apresentador de televisão Russomano por São Paulo com 1.134.512 e 1.514.381 votos. Como necessitavam de 302.000, cada um, há uma sobra de 2.044.893 votos para serem adicionados ao total do partido para garantir a eleição de mais oito deputados que não obtiveram o quociente de 302.00 votos.

Um candidato que tenha obtido 300.000 votos não é eleito se o partido não conseguir ultrapassar o número básico de 302.000 votos. No entanto com os votos de sobra acima citados um candidato desse partido que tenha obtido 30.000, por exemplo, estará eleito.

Cito esses comentários para fortalecer as considerações prestadas no início desse texto para demonstrar o risco que enfrentará o candidato que assume compromissos gravosos em busca de uma eleição de natureza tão duvidosa.

Lembremos sempre do ditado muito usado pelos mineiros: “ caldo de galinha, preocupação e agua benta não faz mal a ninguém”.

3 comentários em “CANDIDATO

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  1. Dr Henrique, por isso a reforma eleitoral é tão necessária e, ao mesmo tempo, tão abominada pelos políticos profissionais, que passam por gerações sempre tendo ao menos um membro da família compondo a legislatura corrente. E como são eles os responsáveis por legislar (ou deveriam… vide STF e STE!) continuamos elegendo 23 deputados diretamente e 513 de maneira indireta. Triste terra brasilis!

    1. Boa noite, amigo Pelluso.
      O problema é que os interesses são maiores e direcionados para o próprio umbigo. Infelizmente esses cargos são considerados como profissão. Se é assim deveria haver recrutamento mediante concurso publico. Abs

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