Retrospectiva

Estamos nos aproximando da passagem de ano.

Parafraseando Marcelo Rubens Paiva, podemos dizer Feliz Ano Velho. 2020 foi o ano que começou acabando e desde o seu inicio em 1º de janeiro até agora 31 de dezembro nada mudou, nada se fez, pouco aconteceu por conta de um microrganismo que chegou sem pedir licença e os donos da casa não tiveram força nem competência para expulsá-lo.

Antecipando-nos à mídia vou proceder à retrospectiva do ano.

Estive em janeiro em Cabo Frio sem nenhuma suspeita do que viria pela frente voltando ao final de fevereiro para Brasília, quando via anunciado que a China estava conturbada com a presença de um vírus desconhecido e que poderia ameaçar o mundo com uma pandemia.

Imediatamente vimos a Organização Mundial da Saúde rebater dizendo que não havia nenhum indicio de que isso pudesse ocorrer. Enquanto isso, no Brasil a farra comia solta e ainda mais à época de carnaval com verdadeiras multidões nos Sambódromos do Rio, São Paulo e Salvador, sem falar nos demais centros. Ninguém dava conta de nada e muito menos se preocupava com o avanço da endemia na China e vazamentos para alguns países europeus.

A única coisa certa é que o “bichinho” satisfeito da vida avançava a passos acelerados e tomava conta dos espaços sem a menor resistência. Daí, começaram surgir noticias mais alarmantes do novo inimigo sem que comovesse a população mundial que não percebia a chegada do agente da Terceira Guerra e nem mesmo aventava a hipótese de que isso viria a ocorrer.

No Brasil o nosso Presidente dava uma declaração exaltando sua compleição atlética e declarava que jamais seria abatido por uma “ gripezinha” sem imaginar que seria causadora de 100.634 ( cem mil seiscentos e trinta e quatro) mortes no país.

Durante o tempo com muita perplexidade eu não acreditava da existência de uma disputa política entre membros do governo e no seio da população a respeito do combate à pandemia que a essa altura, assolava todos os continentes numa velocidade de uma progressão geométrica enquanto o combate seguia a passos de uma progressão aritmética, me utilizando da máxima da teoria Malthusiana.

E assim foi até chegar aos nossos dias em que após esforços hercúleos, técnicos e financeiros de grandes potências foram anunciadas as esperadas e milagrosas vacinas que já estão sendo aplicadas em alguns países em fase emergencial.

No Brasil, estamos em espera da liberação pela ANVISA, que é o órgão técnico nacional responsável por essa providencia. Até aí, nada demais, pois o fato de já estarem aprovadas em outros países não significa dizer que já deveria ser utilizada entre nós, pois os fatores a serem avaliados são específicos para cada região.

O que não se admite e é realmente escabroso é uma disputa de vaidades embasando a administração do imunizante na população.  É imperdoável a exploração política de uma questão tão nobre e de tamanha importância para a sociedade e principalmente o ridículo de se chegar ao cúmulo de o Supremo Tribunal Federal, em princípio considerada a maior Corte Judiciária do país ser chamado a determinar a forma a ser observada na campanha de vacinação, estabelecendo prazos, prioridades e seleção de laboratórios, no exercício de uma típica função administrativa que de longe passa pela sua competência.  E que formação técnica tem os senhores ministros para opinar e determinar tais medidas? Decidir se é constitucional obrigar o cidadão ser vacinado, ou  interpretar constitucionalmente a competência para   definir as regras da campanha de vacinação, nada a opor, mas querer estabelecer a data para o inicio da imunização ou as prioridades para o atendimento, data vênia não é assunto deles.

Enquanto isso, a nova cepa procura seu lugar de honra.

Como se vê de março (quando as primeiras medidas foram anunciadas) até agora, em dezembro de 2020 nada mudou.

Mas, no período, tivemos também que nos ocupar de saber e dar palpites nas eleições do Estados Unidos da América, e segundo nos informa o festejado jornalista André Gustavo Stumpf em texto publicado no Correio Braziliense, o Presidente Bolsonaro somente agora reconheceu a vitória de Joe Biden porque ” estava sendo mal informado pelo Embaixador brasileiro em Washington, Nestor Foster, que é um bom conhecedor de vinhos, mas parece não entender nada sobre as eleições norte americanas.”

Tivemos, inclusive, discursos em Câmara dos Vereadores de município de grotões protestando contra a contagem de votos naquele país. Não me surpreenderia se  até convocassem  o embaixador americano para se explicar.

Me lembro que no pós guerra contava-se uma história de dois  matutos mineiros no alto da colina, conversavam sobre vários assuntos. Em dado momento um deles disse dando uma baforada com  o cigarrinho de palha: ” ô cumpadre, dizem que o Japão arrumou uma guerra contra os Estados Unidos e perdeu feio. Sabe o que aconteceu depois? Os americanos foram lá e construiram tudo de novo para eles.”

O cumpadre respondeu: ” Uai, então é bom demais. Porque que nós não fazemos tambem uma guerra dessa?”

O primeiro replicou: ” É cumpadre, mas e se nós ganhar??”

” Mutatis mutandis” é assim que as coisas são tratadas por aqui.

Embora a China seja o maior importador dos nossos produtos no mercado internacional vemos deputado federal Presidente de uma importante Comissão da Câmara dos Deputados atacar o governo daquele gigantesco país por razões meramente ideológicas.

Tem o direito de fazê-lo, tem, mas como pessoa física ou mesmo como parlamentar, mas não como representante da Câmara dos Deputados através de sua Comissão de Relações Exteriores. E isso, no momento que em função da pandemia tivemos uma quebra impressionante na produção nacional e com reflexos significativos na economia com o dólar, atingindo a casa dos seis reais e o euro ameaçando chegar aos sete reais, índices insuportáveis que jamais poderíamos imaginar que tivéssemos.

E como não bastassem esses atropelos assistimos o Presidente da República se envolver na eleição dos Presidentes da Câmara e do Senado, embora se trate de um assunto que não lhe compete tratar, além de total inconveniência da natureza política.

Lembro-me quando exercia a função de Sub Chefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil da Presidência da República, no Governo do Presidente José Sarney, aproximando-se das eleições das Mesas do Congresso, alguns “ palpiteiros” movidos por interesses próprios, tentavam envolver o Presidente, que além de competente é um bom ouvinte, e teve a gentileza de me consultar sobre o assunto. Eu lhe disse na época que o seu envolvimento não traria nenhum lucro e pelo contrário iria contrariar uma parcela do Congresso que não tinha nenhum problema com o governo e que ao final da eleição se o candidato por ele apoiado ganhasse, a vitória seria dele, deputado e se perdesse a derrota seria do Presidente.

Meditou bem e não se envolveu. O Presidente eleito, como sói acontecer teve um bom convívio conosco, e não poderia ser diferente pois existem a Constituição Federal e o Regimento Interno que estabelecem as regras da administração legislativa, bastando ao Governo ter uma boa articulação política.

A proposito, vale registrar o texto  escrito pelo General Rego Barros, que por sua inteligente competência, teve  marcante passagem no cargo de Porta Voz do  Governo.  no qual estabelece uma comparação entre o  ” General ” Armstrong Custer e os  atuais dirigentes e termina descrevendo alguns ensinamentos:

” É impositívo  planejar com segurança a hora do ataque; é preciso ouvir assessores experientes; não se divide forças contra inimigos poderosos; é preciso cautela, mesmo que a ansiedade por fama fale mais alto; há infiltrados que são mercenários e se vendem pelo melhor preço; os inimigos não ficam inertes, fazem alianças e estudam os adversários; os verdadeiros guias de uma nação chegam ao poder e passam à história por terem conduzido e superado com serenidade e determinação as crises e as catástrofes.”

Finaliza arrematando: ” Oxalá esses ensinamentos ajudem os nossos Custer contemporâneos a reverem seus conceitos de liderança , incorporando no seu alforje de atributos de personalidade a humildade, a serenidade, a temperança, a maturidade, a empatia e acima de tudo a verdade.”

 No caso presente, além dos desgastes já ocorridos não se sabe o que se tem ainda pela frente.

Vejo também com entusiasmo a fala serena e criteriosa do Presidente do Banco Central neto do meu saudoso amigo Embaixador e Ministro Roberto Campos, alertando que é mais barato gastar para vacinar  toda a população do que com Planos Emergenciais.

Resta lamentar também a morte de amigos, figuras públicas como atores e atrizes, cantores, esportistas, intelectuais e representantes de brasileiros de todas as classes sociais vitimas desse mal diabólico que decidiu invadir o mundo.

Pois bem, ao final do ano ao invés de ficar meditando sobre fatos que não acrescentaram nada, prefiro ouvir várias vezes, pelo You Tube, uma linda apresentação de Andréa Bocceli e sua filha interpretando “ Aleluja “ que enche nosso coração de emotivos pensamentos.

3 comentários em “Retrospectiva

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  1. Otimo texto, Hargreaves, seguimos como fiel eleitor e torcendo para não demorar o próximo. Gostei da sugestão de ouvir o Andrea Bocelli, mas permita me sugerir, também no YouTube, a cantora espanhola Irene Atienza cantando El Dia Que Me Quieres. Ótimo Natal!

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